BREJO DOS CRIOULOS
A comunidade Brejo dos Crioulos localiza-se nos municípios de São João da Ponte e Varzelândia, região norte de Minas Gerais. De acordo com Mamede Moreira da Silva, presidente da Associação Quilombola de Brejo dos Crioulos, a comunidade agrega 684 famílias. Brejo dos Crioulos é uma das maiores comunidades quilombolas no estado.
Localizada na região da bacia do rio Verde Grande, ela compõe a rede de comunidades negras rurais no norte mineiro. Às margens do ribeirão Arapuim, a comunidade, atualmente, está estruturada em diversos grupos locais: Araruba, Arapuim, Cabaceiros, Caxambu, Conrado e Furado Seco (Costa, 2001: 100).
Origem da Comunidade
A origem de Brejo dos Crioulos remete ao período em que as terras do Vale do rio Verde Grande eram ainda consideradas impróprias para a presença humana. Sua mata, além de dificultar o acesso, favorecia a existência de insetos causadores de várias doenças tropicais, como a malária. Em função disso, a região ficou conhecida como Mata da Jaíba – o termo jaíba teria origem tupi e significaria águas ruins ou fruta ruim (Costa, 2001: 105).
Considerada insalubre, ela não foi alvo da ambição colonizadora durante os séculos XVIII e XIX. Nesse sentido, tornou-se a principal área de fuga dos negros escravos da região. Em sua determinação por liberdade, eles enfrentaram as dificuldades e se instalaram gradativamente naquelas matas. E se, inicialmente, o aspecto geográfico já era considerado um empecilho para sua ocupação pelos setores dominantes da sociedade mineira, a presença negra consolidou a visão do lugar como inadequado e impróprio.
Essa é uma das explicações apresentadas para a origem da ocupação da região. Outra análise entende que as oligarquias locais teriam enviado seus escravos para a região a fim de que dessem início ao afazendamento de terras que possuíam em áreas insalubres (Costa, 2001: 109). Essas duas perspectivas, apesar de discordarem em aspectos relevantes, reconhecem a ocupação negra do território.
Desvalorizadas por causa da insalubridade e da presença de negros fugidos ou forros, as matas do Jaíba permaneceram livres de grandes disputas nos séculos XVIII e XIX – fato que permitiu aos negros se instalarem naquele território e ali criarem raízes e uma vida de liberdade.
Vários foram os grupos negros que ocuparam aquelas matas, dentre eles, os ancestrais da comunidade Brejo dos Crioulos. Ao traçar a genealogia de seus grupos familiares, o pesquisador João Batista Costa constatou vínculos entre eles e diversas comunidades negras na região. Tal constatação o permitiu afirmar existir ali não um grupo ou uma comunidade, mas uma rede de grupos negros, a que ele definiu como Sociedade Negra da Jaíba (Costa, 2001: 112).
A necessidade dos quilombolas de adquirir bens fez com que procurassem locais onde pudessem trocar seus produtos. As idas até as vilas aconteciam com freqüência. Apesar da punição prevista em lei, eles estabeleceram relações comerciais de trocas com outros setores da sociedade: taberneiros, pequenos fazendeiros, cativos e outros quilombolas. A teia de relações construída pelos quilombolas chama a atenção.
Nas trilhas percorridas até os centros urbanos, encontravam também outros agrupamentos de negros. Gurutuba, Mocambinho, Campo Redondo e Contendas foram alguns dos diversos grupos negros com quem os quilombolas de Brejo dos Crioulos estabeleceram relações de troca. Estabelecido o contato entre os grupos, as festas de seus santos também se tornaram motivo para o encontro e, muitas vezes, para a união entre homens e mulheres. Para João Batista “como linhas ligando nós em uma rede”, as comunidades estabeleceram vínculos que lhes permitiram compor uma sociedade específica (Costa, 2001: 112).
A Luta pela Terra
Foi somente no século XX que a região da Jaíba se tornou atrativa para a sociedade em geral, por causa da construção de uma estrada de ferro nas proximidades da Serra do Espinhaço. A estrada de ferro resultou na valorização das terras e nas conseqüentes disputas fundiárias na região. O território negro tornou-se então alvo de grande interesse econômico.
A partir da década de 1940, a região tornou-se alvo de disputas com fazendeiros que se utilizaram da violência para expulsar famílias inteiras de suas terras. Dois conflitos tornaram-se mais conhecidos por terem ocorrido assassinatos e serem denunciados em listas divulgadas por entidades não governamentais, como a Comissão Pastoral da Terra (Costa, 2001: 101). O pesquisador João Batista descreve esse período como anos de terror:
Quando famílias inteiras sofreram as mais atrozes violências, sendo obrigadas muitas vezes a se esconderem nas matas que circundavam suas casas, vê-las sendo queimadas e seu gado roubado. Para não serem mortos, tiveram que fugir para outros lugares, depois de venderem seus bens a tronco de pinga, lenços e quase nada em dinheiro para aqueles que cobiçaram suas terras. Desde essa época, fugindo ao horror da violência fazendeira apoiada pelo poder municipal, parte de seus parentes espalharam-se pelo país inteiro, fugindo, como seus ancestrais, para outros lugares para manterem-se vivos (Costa, 2001: 101-102).
Pressionados a vender suas terras por bens ou valores insignificantes, famílias quilombolas foram expulsas de suas terras. Migraram para cidades ou para outras áreas rurais por causa da pressão e da violência ali instaladas. A vida em comunidade foi drasticamente afetada e o território negro dividido.
Atendendo as reivindicações dos quilombolas, o Incra abriu, em dezembro de 2003, o processo de regularização do território de Brejo dos Crioulos. Em maio de 2007, segundo informações oferecidas pela superintendência do Incra de Minas Gerais, o relatório já havia sido concluído mas ainda não publicado no Diário Oficial da União.
A morosidade do órgão governamental e a tensão vivida na região levaram os quilombolas a ocupar, no dia 20 de maio de 2007, a fazenda Vista Alegre, localizada no perímetro do território tradicional de Brejo dos Crioulos. A ocupação resultou na reação violenta de um dos empregados da fazenda, que disparou tiros e feriu dois quilombolas.
• Acompanhe a luta da comunidade pelo sítio eletrônico do Cedefes
• Acompanhe o processo de titulação dessa terra
A História da Presença Negra em Minas Gerais
Quilombos Urbanos
Quilombos Rurais
N'Golo - Federação das Comunidades Quilombolas de Minas Gerais
Conquistas e Desafios
Fontes Consultadas
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