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ARTUROS

Localizada no município de Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, a comunidade dos Arturos possui grande visibilidade regional em razão de suas festas e de sua religiosidade.

A comunidade é formada por cerca de 400 indivíduos descendentes de Camilo Silvério, que teria chegado a Minas Gerais como escravo no terceiro quartel do século XIX. Na região de Esmeraldas, casou-se com Felisbina Rita Cândida. Filho do casal, Arthur Camilo Silvério, “pode ser considerado personalidade fundadora da Comunidade dos Arturos, legando-lhe inclusive o nome” (Gomes & Pereira, 2000: 163).

A Saga de Arthur Camilo Silvério
Arthur Camilo Silvério nasceu em 1880, tendo sido beneficiado pela Lei do Ventre Livre que tornou libertos todos os negros nascidos após o ano de 1871. Todavia, apesar de não ter sido escravo, conheceu o sistema escravocrata em seus últimos anos de existência e sofreu a violência que persistiu nas relações entre patrão e empregado mesmo após a abolição da escravatura.

Seu pai, Camilo Silvério, conseguiu juntar uma soma de dinheiro que em 1888 (ano da abolição da escravatura) lhe permitiu comprar uma parcela de terra de 6,5 hectares situada na zona suburbana de Contagem (Gomes & Pereira, 2000: 165). No entanto, a compra da terra não foi suficiente para evitar o sofrimento de sua família.

Arthur Camilo precisou trabalhar nas fazendas, não tendo conseguido se manter, de imediato, nas terras adquiridas por seu pai. Na fazenda, foi muito maltratado pelo seu patrão e padrinho, que o açoitava e colocava cães para vigiá-lo.

Na memória coletiva de seus descendentes está fortemente marcado o episódio de ter apanhado na boca com um instrumento de madeira, quando insistiu a ter autorização para ver o corpo de seu pai. Os filhos de Arthur lembram emocionados do pai lhes contando tal história. A dor física e a tristeza de não ter podido se despedir de seu pai marcam a história dos Arturos – grupo que possui na benção aos mortos uma das suas mais importantes tradições.

A benção aos mortos foi um dos costumes conservados pelos negros mesmo durante o período da escravidão. Cuidar para que os seus tivessem uma boa morte constituía uma das obrigações primeiras das irmandades: velar, rezar e enterrar bem seus mortos (Oliveira, 2005: 27).

A vida de Arthur Camilo Silvério foi marcada pela fé e pelo trabalho. Ele sonhava poder garantir a unidade e sustentação da família. Para isso, ele fugiu da fazenda onde foi açoitado após a morte de seu pai. Iniciou uma trajetória de trabalhos diversos em fazendas e cidades diferentes. Nesse percurso, em busca de uma vida livre de opressão, ele acumulou recursos para poder retornar e manter-se, enfim, na terra herdada de seu pai.

Casado com Carmelinda Maria da Silva, Arthur teve dez filhos: Geraldo Arthur Camilo (seu Geraldo), Conceição Natalícia da Silva (Tetane), Juventina Paula de Lima (Intina), Maria do Rosário da Silva (Induca), José Acácio da Silva (Zé Arthur), Izaíra Maria da Silva (Tita), Antônio Maria da Silva (seu Antônio), Mário Braz da Luz (Tio Mário), João Batista da Silva (João) e Joaquim Bonifácio da Silva (Bil). Raimundo Afonso da Silva (Reimundão) é o 11º filho, que foi “adotado pelo casal e passou a fazer parte da família e ser tratado sem distinção alguma dos filhos legítimos” (Oliveira, 2005: 31). São eles que representam os principais e atuais grupos familiares dos Arturos.

O sofrimento fez com que Arthur Camilo prometesse aos filhos condições de uma vida de liberdade, união e religiosidade. Ele prometeu realizar o sonho de seu pai: unir seus descendentes em torno da herança cultural de seus antepassados trazidos da África nos navios negreiros. Sobre a promessa de Arthur, uma de suas filhas relata:

Depois de tudo o que passou, papai prometeu que lutaria para que seus filhos nunca tivessem que passar pelo sofrimento que ele passou. Nunca culpou os pais pelo sofrimento que passou, pois a situação era de muita dificuldade para todos, negro ainda era escravo. Mas o que ele não queria era que seus filhos, que nós tivéssemos o mesmo destino que ele. Por isso temos terra para morar hoje. Ele cumpriu sua promessa (apud Oliveira; 2005: 29).

A Vida Hoje
Os Arturos vivem um destino diferente de seus antepassados. Na terra adquirida e comprada com muito esforço, os filhos de Arthur Camilo dão vida à tradição transmitida por seu pai e consolidam uma vida de liberdade.

Conhecidos como grandes narradores, os Arturos se orgulham da religiosidade, união e tradição transmitida pelo patriarca. Considerado pai exemplar, homem de personalidade forte e profunda religiosidade, Arthur Camilo é admirado e lembrado como símbolo da força, do sofrimento e da resistência negra (Gomes & Pereira, 2000: 172).

A inviabilidade de todos se manterem na terra, um “bairro rural da cidade de Contagem”, frustra os mais velhos da comunidade que entendem ser a vida coletiva e a união das famílias a razão de existência do grupo. No espaço coletivo, histórias foram e são narradas, memórias compartilhadas, ensinamentos transmitidos.

Em 2005, o Incra institui processo administrativo para regularização fundiária da área quilombola. No entanto, esse é um dos processos que apenas possui um número de protocolo na superintendência de Minas Gerais. Até maio de 2007, nenhuma medida efetiva acerca do caso foi realizada.

Acompanhe o processo de titulação dessa terra

Congada dos Arturos
Os Arturos buscam nas festas religiosas, na devoção à Nossa Senhora do Rosário e demais santos negros (são Benedito e santa Efigênia) a força para superar os desafios da vida cotidiana (Bertolino, 2007).

O ano para os Arturos é repleto de festas: “Libertação dos Escravos”, em maio; “Nossa Senhora do Rosário”, em outubro; “João do Mato”, em dezembro; “Folia de Reis”, em dezembro e janeiro. Além dessas datas marcadas, há os batuques feitos nos aniversários e casamentos e, mais raramente, o “Ritual do Candomblé” (Ramos, 2000: 51).

A música, a dança e os tambores compõem a vida dos descendentes de Arthur Camilo. Fé e religiosidade transformada em festa – essa foi a forma encontrada pelos Arturos para superar a marca do sofrimento vivido pelos seus antepassados e as dificuldades do cotidiano.

Em contato com a divindade, eles saem do tempo histórico e cotidiano para entrar no tempo mítico, no tempo santificado. Unidos pela fé no Rosário de Maria, os Arturos agregam em si a força dos antepassados e reencontram a plenitude, na magia de seus ancestrais. Conduzidos pelo ritual da festa, os Arturos voltam à Terra-Mãe, à Grande Família da África (Ramos, 2000: 51).

A Congada dos Arturos é famosa e atrai muitos convidados para Contagem. A festa se caracteriza pelo cortejo e pelo bailado, em que os figurantes representam, entre cantos e danças, a coroação de um rei congolês e a devoção à Nossa Senhora do Rosário.

Regras sociais e religiosas marcam essa festa, repleta de símbolos. Mastro, bandeiras, vestimenta, canto, dança, reza, cortejo e missa são alguns dos elementos característicos. Às pessoas importantes da comunidade destinam-se cargos de destaque.

Funções específicas são atribuídas às pessoas e aos elementos que compõem essa festa ritual. O cortejo é marcado por uma trajetória pelo espaço interno da comunidade e pela Igreja de Nossa Senhora do Rosário, em Contagem.

São três dias de festejos, mas a preparação da festa implica muito mais tempo de dedicação. “É preciso enfeitar a capela, os mastros e o terreiro com flores e bandeirinhas de papel colorido; consertar as roupas e os estandartes; afinar os instrumentos; confeccionar centenas e centenas de biscoitos para acompanhar o café sempre quentinho no fogão a lenha; e, sobretudo, preparar o grande almoço de domingo, tradicionalmente servido para mais de quinhentas pessoas” (Ramos, 2000: 58-59).

Com suas vestes e decoração especial, a comunidade ganha um colorido diferente. Ao som dos tambores e dos bastões, eles cantam, dançam e rezam. Os convidados abrem roda para ver a manifestação dos filhos de Arthur.

Com lenços amarrados nas cabeças ou capacetes ornamentados com fitas coloridas, todos usam uma espécie de saia até a altura dos joelhos sobre as calças compridas – uma inspiração do estilo africano de se vestir. As cores rosa, verde, branco e azul marcam esse colorido festivo.


A História da Presença Negra em Minas Gerais
Quilombos Urbanos
Quilombos Rurais
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Fontes Consultadas