LUÍZES

O quilombo Luízes localiza-se na capital mineira, em um bairro de classe média alta, denominado Grajaú, e soma aproximadamente cem pessoas. Sua origem remete ao final do século XIX, quando a região ainda era conhecida como Curral Del Rei.
A comunidade tem sido historicamente liderada por mulheres. A memória oral do grupo traz Anna Apolinária Lopes como sua principal ancestral. Segundo dona Luzia Sidônio, presidente da Associação Quilombola Luízes, Anna Apolinária é quem dava as ordens no quilombo, inicialmente denominado “Quilombo das Piteiras”.
Esse nome foi escolhido em função da presença de árvores cujas folhas grossas, longas e aceradas fornecem boas fibras. Segundo dona Luzia, com a planta (pita), que se assemelha a um tipo de cizal, seu povo confeccionava perucas, cachos e enchimento para os cabelos (Sidônio, 1998: 18).
A matriarca dos Luízes, também conhecida como Anna Mãe, Anna Guerreira, Anna Terra ou Anna Escrava, foi amasiada do homem que era seu proprietário, ainda no século XVIII. Dele teria herdado um terreno no atual município de Nova Lima, localizado a 22 quilômetros de Belo Horizonte.
A agricultura era a base da subsistência do grupo, juntamente com a manufatura da pita e do coco licuri. Da pita, eles fabricavam perucas, cachos e enchimentos para cabelos. Do coco licuri, eles produziam óleo de cozinha e sabão.
A Migração
Segundo dona Luzia, até 1930 a comunidade se manteve nas terras doadas à matriarca. No entanto, a chegada da empresa multinacional Saint John Del Rey Mining Company Limited (conhecida como Companhia Morro Velho) e sua busca por minério na região acabaram por resultar em uma barganha de terras entre a empresa e os quilombolas.
Na área adquirida originalmente pela empresa – fazenda Bom Sucesso – não foi encontrado minério algum. Para evitar o fracasso do negócio, a empresa trocou a sua área pelas terras dos descendentes de Anna Apolinária (Sidônio, 1998). A troca fez com que o grupo se mudasse para uma área onde outros parentes já habitavam e onde, posteriormente, foi construída a nova capital mineira, Belo Horizonte.
Nicolau Nunes Moreira e sua esposa foram os primeiros Luízes a seguir para a futura nova capital. Ali trabalharam e compraram uma “sorte de terra” (Sidônio, 1998: 27). Para lá levaram mudas de pita a fim de dar continuidade ao trabalho de confecção de perucas. À nova morada, localizada na atual região oeste da capital, onde hoje se encontra o quilombo Luízes, deram o nome “Fazenda Piteiras”.
Segundo Luzia, havia duas famílias descendentes de escravos no início do século XX na área onde hoje se encontra Belo Horizonte: os Luízes e os Cândidos. Essas duas famílias uniram-se através do casamento, como foi o caso de Quirino Cândido de Jesus com Eulália Luiz e Francisco Cândido (tio Chico) com Aurora Luiz.
Como os descendentes de Anna Apolinária carregam consigo o sobrenome Luiz, a comunidade passou então a ser denominada Luízes.
A Resistência
Atualmente, a área ocupada pela comunidade na capital mineira possui grande valor imobiliário. A especulação e o preconceito da sociedade têm pressionado a saída dos Luízes da região. Sobre a luta e resistência atual, dona Luzia comenta:
Como todo cidadão pagamos impostos e taxas. Embora sejamos proprietários dessas terras, somos discriminados, humilhados e mortos pelos especuladores. Nossos vizinhos burgueses dizem e deixam bem claro que este bairro não é para negros. Nós, os Luízes, lutamos até a morte em defesa de nossos direitos, como é o caso de Cordelina, morta por lutar pela nossa comunidade; e tentamos resistir às grandes construtoras, que já tomaram grande parte de nossa fazenda. Tudo isto porque somos uma raça em luta há mais de trezentos anos, aparentemente privilegiada pela Lei Áurea, que veio apenas para beneficiar os senhores latifundiários e não os negros, porque liberdade mesmo ainda não tivemos (Sidônio, 1998: 39-40).
A luta dos Luízes não é diferente da luta travada pela maioria dos quilombolas no Brasil: a necessidade de garantir a posse e a propriedade de um território historicamente conquistado. A especificidade do caso reside no fato desse território localizar-se hoje em uma área urbana extremamente valorizada. As construtoras ambicionam os terrenos e desejam a saída dos quilombolas tanto quanto os moradores que acreditam na maior valorização imobiliária sem a presença dos negros.
A comunidade dos Luízes possui aproximadamente cem pessoas que residem no bairro Grajaú e mais de 300 pessoas espalhadas pela cidade de Belo Horizonte. Segundo Luzia, muitos não conseguiram resistir à pressão e alugaram seus imóveis, seguindo para outras regiões da cidade.
Dona Luzia se orgulha ao dizer que na comunidade não há analfabetismo, e com relação aos projetos para seu povo, ela apresenta o sonho de construírem uma capela, um espaço para realização de cursos profissionalizantes e um espaço para o resgate e manifestação cultural. Todavia, ela conclui: “para isso é necessário garantirmos a nossa permanência aqui”.
Veja também:
• Confira a entrevista com Dona Luzia
• Acompanhe o processo de titulação dessa terra
• Acompanhe a luta da comunidade pelo sítio eletrônico do Cedefes
A História da Presença Negra em Minas Gerais
Quilombos Urbanos
Quilombos Rurais
N'Golo - Federação das Comunidades Quilombolas de Minas Gerais
Conquistas e Desafios
Fontes Consultadas
|