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BOM JARDIM


A comunidade quilombola de Bom Jardim está localizada na beira do Rio Maicá (um braço do Rio Amazonas), a cerca de 40 quilômetros da cidade de Santarém. Compartilha de um território comum com as comunidades Murumurutuba, Murumuru e Tiningu.

Atualmente, vivem em Bom Jardim aproximadamente 70 famílias. Suas casas estão distribuídas pela área da comunidade. Há também um centro comunitário onde estão localizados o barracão comunitário, a escola e a capela.

As terras de Bom Jardim foram deixadas para os negros como herança pelos seus antigos senhores. Antes de morrer, a senhora Joaquina da Silva Ferreira, que era a dona da Fazenda Bom Jardim, expressou em testamento sua vontade de libertar seus escravos por bons serviços prestados, o que deveria ser feito após a morte de seu marido. Assim, quando da morte de José Francisco Ferreira Filho, em 1876, os escravos ganharam a liberdade e as terras da fazenda.

Nessas terras, os quilombolas de Bom Jardim, Murumurutuba, Murumuru e Tiningu vivem até hoje. Mas não tem sido fácil resistir à pressão dos interessados nas terras. Atualmente, uma parte significativa do território quilombola encontra-se ocupado por fazendeiros.

Segundo os quilombolas, uma grande parte de sua área está nas mãos do fazendeiro Renato Marinho e foi inteiramente desmatada há aproximadamente dez anos. Atualmente, o conflito com este fazendeiro ocorre em função da extração de pedra das cabeceiras das serras para uso em construções. Os quilombolas preocupam-se com as conseqüências desta atividade, pois a retirada das pedras pode contribuir para que haja erosão levando a areia dos morros para dentro dos cursos d´água, que podem acabar sendo aterrados.

Outra porção do território de Bom Jardim bastante desmatada é aquela que foi ocupada pela empresa Pematec, que produz fibra de curauá. Desde 2001, essa área tem sido desmatada e utilizada para a plantação de curauá.

A diminuição das áreas de floresta afeta em muito a subsistência dos quilombolas já que reduz as possibilidades do extrativismo e da caça. As atividades de coleta hoje estão praticamente reduzidas ao açaí e à andiroba, que se localizam em áreas de várzea.

Outra grave conseqüência do desmatamento é o aterramento de igarapés e igapós. Com o desmatamento, há a erosão, as terras dos morros caem e são levadas pelas águas para os igapós, aterrando-os. Assim explica Dileudo Guimarães dos Santos, importante liderança do Bom Jardim:

"Tem igarapés bonitos que existiam aí que já tapou já. Como eles meteram a máquina, a terra vai aterrando os igapós. A água que vem vai levando a terra para os igapós, aí vai aterrando. E a partir do momento que essa terra vai penetrando os igapós, aí vai endurecendo e o açaizeiro vai morrendo. E isso está acontecendo".

Nos últimos anos, a pressão tornou-se ainda maior em função da expansão do plantio da soja, que vem intensificando o desmatamento e a ocupação de grandes extensões de terras planas, em cima da serra.

Para tentar assegurar os seus direitos territoriais, em 2003 os quilombolas de Bom Jardim protocolaram junto ao INCRA o pedido de titulação de suas terras.   Dileudo Guimarães dos Santos, presidente da comunidade, conta como tem sido o processo de mobilização dos quilombolas para obter o título de suas terras:

"O que nos despertou para a gente estar nesse movimento e estar nos organizando é a titulação das nossas terras. Esse é o nosso objetivo. Porque a gente começou a olhar dentro das nossas comunidades: quantas famílias hoje vivem que não têm terra para trabalhar. E as nossas terras estão concentradas nas mãos de quem? Então, tem o que a lei diz. Olhando nosso passado, vemos que o negro trabalhou muito como escravo e ajudou muito no crescimento e no desenvolvimento do nosso país. E a gente vai ver hoje porque a gente vive sem terra, foi porque os nossos antepassados não tiveram o que deixar para nós. Então a gente vê que o que o governo quer devolver para nós não chega nem à terça parte daquilo que a gente merece. Então olhando tudo isso, a gente diz: nós estamos buscando uma coisa que é nossa. E então vamos nos organizar, vamos buscar. É nesse sentido que nós estamos lutando. (...) não só pela luta pela terra, mas também pela perda da cultura e da discriminação. Então, a gente tem que estar lutando sempre pelos direitos, direitos iguais. É isso que leva a gente a fazer essa luta".

Os quilombolas de Bom Jardim, Murumurutuba, Murumuru e Tiningu lutam juntos para conseguir a titulação coletiva de suas terras em nome da Associação dos Remanescentes de Quilombos da Fazenda Bom Jardim.


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