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SARACURA


A comunidade quilombola de Saracura está situada em uma ilha do Rio Amazonas, localizada a menos de uma hora de barco da cidade de Santarém.



O nome da comunidade tem uma origem peculiar, como explica Marcionília de Oliveira, conhecida como D. Mocinha, neta dos fundadores da comunidade:


"Minha avó foi escrava, mas não aqui, num lugar chamado Cacoal Grande [município de Monte Alegre]. De lá que ela veio para cá.
Eles foram os primeiros que chegaram aqui em Saracura. Foi depois que a Sara chegou. E os que vinham para cá procurando a Sara perguntavam para eles quem é que curava. E eles davam de resposta "a Sara cura". Então é por isso que tem o nome deste lugar: Saracura.
A Sara morava escondida porque ela era curandeira e a polícia perseguia muito. Era por isso que eles perguntavam".





A atividade econômica principal das 115 famílias que residem em Saracura é a pesca, tradicionalmente realizada no Rio Amazonas e nos lagos que se formam no interior da ilha na época de cheia do rio.

A comunidade pratica também a agricultura no período do verão (entre agosto e dezembro). Nas roças plantam milho, feijão, mandioca e melancia.   Nos terreiros das casas cultivam as árvores frutíferas, tais como coqueiros, bananeiras, mangueiras, gravioleiras e goiabeiras.

O excedente tanto da pesca quanto do roçado é transportado de barco e vendido em Santarém.

No entanto, ambas as atividades estão sendo prejudicadas pelos fazendeiros, que trazem seus gados para a ilha. Como não ficam devidamente cercados, os bois destroem e comem as plantações além de contribuírem para expulsar os peixes dos lagos.

Conforme nos contam os moradores de Saracura, os fazendeiros chegaram à ilha por volta da década de 1950. O motivo de suas vindas eram as excelentes condições que a terra de várzea apresentava para a criação de gado. Hoje, a maior parte da área da ilha está nas mãos de 12 fazendeiros.

A maior parte do território tradicional de Saracura encontra-se hoje sob o domínio dos fazendeiros. Sobra, desta forma, muito pouco espaço para que os quilombolas possam plantar roça e desenvolver suas atividades. A esse respeito, contou Sr. Aldo, morador de Saracura e presidente da associação da comunidade:

"Eu que trabalho aqui nessa comunidade todo esse tempo e que estou dia a dia pelas casas, eu vejo as dificuldades que eles enfrentam. Então, a vida no quilombo de Saracura é difícil, praticamente a gente não tem terra para trabalhar. Então, isso seria uma palavra-chave: os quilombolas de Saracura não têm terra para trabalhar, só temos para morar, e mesmo assim bem pouquinho".

As palavras de Aldo são reforçadas pelo relato de D. Mocinha:

Aqui no Saracura tem muita fome. Antigamente tinha a roça. Mas isso era na época que a gente ainda plantava juta aqui. Faz mais ou menos 17 anos que a gente não planta mais juta aqui. Hoje o gado come a plantação. Uma comunidade dessa é para viver de barriga cheia? Eu digo que não. Para eu que vi essa comunidade com muita plantação, hoje em dia não tem. Você olhava aqui tinha roça para todo lado. Antigamente, também tinha gado, mas era gado para lá e a gente aqui, o gado ficava separado da plantação. Tinha vaqueiros trabalhando e impedindo o gado de vir para cá.

Há algumas décadas a comunidade vem lutando contra o problema do gado e pela garantia de suas terras.   Saracura foi a primeira comunidade quilombola de Santarém a se organizar e fundar a Associação dos Remanescentes de Quilombo de Saracura (ARQSARA), em 2001, com o principal objetivo de lutar pela titulação da terra.

Sr. Aldo, presidente da ARQSARA, ressalta a importância da titulação para a comunidade:

"A coisa mais importante é a titulação já! Todas as coisas são importantes, mas essa é mais importante. Por quê? É onde nós vamos ter o espaço de nós construirmos o nosso roçado, desenvolvermos uma cultura maior. E se nós construirmos uma cultura maior, é claro que o povo vai ter um alimento mais sadio e até melhor para a sua família. Enquanto isso, as comunidades permanecem sofrendo porque não têm onde fazer o plantio. A terra que os comunitários quilombolas têm só dá mesmo para botar as casas, e nada mais. Um coqueiro ou uma bananeira bem pertinho da casa, e assim por diante. Então, com a terra titulada, e com essas grandes propriedades sendo desapropriadas e passadas para a mão dos próprios quilombos, nós vamos ter onde fazer um roçado comunitário, seja ele de que aspecto for, um milharal, mandioca, macaxeira, ou de frutas, por exemplo, mamão, banana. Enquanto isso, não tem saída para os comunitários".

O processo de titulação da terra de Saracura está em andamento no INCRA desde 2003. Alguns levantamentos iniciais foram realizados, mas ainda não há previsão de data para a titulação.


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