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A CASTANHA DO QUILOMBO EM ORIXIMINÁ

O Castanheiro deixa a sua casa em janeiro
Pra ganhar o seu dinheiro sobe o Erepecuru
Mas não é fácil
A coisa é dura meus irmãos [...]
Chega no castanhal
Faz o seu barraco
Para a castanha poder extrair
Entra a mata com seu paneiro e seu facão
Vai pensando no boião
Mas pega logo um jabuti
Enche o paneiro
E pra casa volta já
Põe o jabuti na castanha
Janta e vai descansar.
(Trechos da música Trajetória de um Castanheiro, do quilombola Daniel Souza)
[ouça a música]


Desde o século XIX os quilombolas de Oriximiná coletam e comercializam a castanha-do-pará que representa para eles uma importante fonte de renda.

A extração da castanha é um dos elos que unem os atuais quilombolas aos seus ancestrais. O conhecimento dos castanhais é considerado uma herança deixada pelos antepassados.   Dizem os quilombolas que foram os negros fugitivos que "descobriram" os castanhais. Até hoje, os conhecimentos sobre a atividade de extração da castanha são transmitidos de geração para geração.

Não é por acaso que a prática da coleta da castanha-do-pará constitui um forte elemento da identidade étnica dos remanescentes de quilombos de Oriximiná. Trata-se de uma característica concebida por eles próprios como delimitadora da fronteira étnica entre os quilombolas e os demais setores da população rural da região que se dedicam preferencialmente à agricultura e à pecuária.   Assim, os quilombolas de Oriximiná muito comumente se autodefinem como "castanheiros".

Os territórios quilombolas em Oriximiná são formados por extensas áreas de floresta ainda muito conservadas, que registram grandes ocorrências de castanhais. Os castanhais - bem como as demais áreas de extrativismo, as zonas de caça e ainda os rios e os lagos onde se pratica a pesca - são considerados pelos quilombolas como um bem de uso comum. Isso significa que qualquer integrante das comunidades tem o direito de explorar os recursos naturais dessas áreas.

A terra não é vista ou explorada pelos quilombolas em termos de lotes individuais, nem percebida como uma mercadoria que possa ser dividida e comercializada. Daí a importância das terras de quilombo serem regularizadas através de títulos coletivos.

O uso dos territórios pelos quilombolas de Oriximiná obedece a regras calcadas na tradição e no consenso, compartilhadas pelas diversas unidades familiares. Uma dessas regras proíbe a venda da terra e a destruição de castanheiras.

O extrativismo da castanha determina uma ocupação peculiar do território pelos quilombolas em Oriximiná. As áreas das residências e dos roçados (habitualmente localizados nas margens dos rios e dos lagos) são ocupadas no verão, período em que se dedicam mais intensamente às atividades agrícolas e à pesca. Já no período de inverno (época das chuvas), muitos quilombolas (às vezes famílias inteiras) deslocam-se para as matas a fim de realizar a coleta da castanha.

Esta forma de exploração dos recursos naturais implica a ocupação de extensas áreas. Felizmente, até agora, os quilombolas de Oriximiná têm conseguido na titulação de seus territórios fazer valer o direito de propriedade das áreas de extrativismo. Atualmente, são quatro os territórios integralmente titulados: Boa Vista, Água Fria, Trombetas e Erepecuru. Outro território, Alto Trombetas, encontra-se parcialmente titulado (31% da área total).

À medida que os quilombolas de Oriximiná foram conhecendo melhor os seus direitos, organizando a sua luta e conquistando a titulação de seus territórios, decidiram que era preciso buscar melhores condições para a extração da castanha.

Os quilombolas sempre enfrentaram muitas dificuldades na atividade da castanha. Havia uma carência de meios de transporte e de condições para armazenar a produção. Acabavam dependendo de intermediários (conhecidos como regatões), que compravam a castanha por preços irrisórios e vendiam produtos a preços abusivos.

Para enfrentar essa situação, a Associação das Comunidades Remanescentes de Quilombos e a Comissão Pró-Índio de São Paulo estruturaram o Projeto Manejo dos Territórios Quilombolas.

Graças a esta iniciativa, atualmente os quilombolas contam com uma estrutura de transporte, comunicação e armazenamento que tem possibilitado a venda da castanha diretamente para a usina de beneficiamento em Oriximiná, Óbidos e Belém.

Por meio do Projeto Manejo foi implementado também o Artesanato do Quilombo, que oferece às mulheres quilombolas uma alternativa de geração de renda por meio da produção de peças artesanais confeccionadas com o ouriço da castanha-do-pará, sementes e cipós.

A luta dos quilombolas, a trajetória dos castanheiros e a importância da natureza são relatadas nas canções compostas pelos quilombolas em Oriximiná. Conheça algumas delas:

Força do Negro, de autoria de Rafael Viana
[leia a letraouça a música]

Trajetória de um Castanheiro, de autoria de Daniel Souza
[leia a letraouça a música]

Mãe Cachoeira, de autoria de Antonio Carlos Printes
[leia a letraouça a música]




Veja também:

A história dos quilombos do Baixo Amazonas
A festa do Marambiré na comunidade Pacoval
A castanha do quilombo em Oriximiná
O projeto de educação Mocambo em Óbidos
A luta pela terra em Santarém
Fontes consultadas e entrevistas realizadas