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BOA VISTA DO I

A grande reivindicação dos quilombolas de Boa Vista do Itá é a titulação de suas terras. A comunidade, situada às margens do Rio Itá, no município de Santa Isabel do Pará, está cercada por fazendas de todos os lados, o que gera insegurança entre os moradores:

"Nós estamos aqui, mas ninguém está seguro. A qualquer instante podemos sair com a rede nas costas, porque a gente sabe que quem tem dinheiro tem tudo e nós não temos. Ocorre exatamente como aconteceu quando perderam essas terras porque não tinham o documento. Isso ainda pode nos acontecer com o resto, por isso é que nós temos que documentá-la" (Abílio dos Santos. Apud Quilombos do Pará, CD-ROM, NAEA-UFPA).

O "resto", ao qual se refere o quilombola nesta fala, corresponde aos 16 hectares de terra que sobraram de seu território original. Este contava com mais de dois mil hectares, doados por um antigo fazendeiro da região, conhecido por Major Santos. Seu sobrenome é ainda utilizado pelas famílias de Boa Vista do Itá.

Major Santos era proprietário de fazendas de cacau e de banana e utilizava mão-de-obra escrava. Vestígios das construções da antiga fazenda ainda permanecem em alguns pontos da comunidade e são preservados pelos moradores. Outra lembrança desta época é a imagem do padroeiro da comunidade, São João Batista, herdada do Major Santos, que os quilombolas até hoje guardam na igreja.

As perdas territoriais se deram por diversos motivos. No início dos anos 1960, parte das terras da comunidade foi loteada pelo INCRA e destinada para agricultores vindos de outros Estados. Esses lotes acabaram sendo comercializados diversas vezes.

A especulação imobiliária intensificou-se após a construção da rodovia PA-140, que facilitou o acesso à região, feito antes apenas por navegação nos rios e igarapés.

"Nossa terra era muito grande. Compraram as terras baratas. Tem uma área de mais de 400 hectares que foi vendida. Nós estamos lutando para que o governo nos ajude a reaver as terras, senão a gente não vai mais poder produzir nada, plantar. Nós estamos ilhados. A terra está fraca!" (Abílio dos Santos. Apud Terra de Negro 2 , p. 14).

O processo de regularização fundiária tramita no Instituto de Terras do Pará (ITERPA) desde 2000. Dos 16 hectares ocupados atualmente pelos quilombolas, apenas 10 são próprios para o cultivo, ou seja, terra insuficiente para garantir o sustento das 30 famílias de Boa Vista do Itá.

A principal fonte geradora de renda desta comunidade é a roça de mandioca e seus derivados, como a farinha, a goma e o tucupi. Além disso, coletam a pupunha e cultivam a banana, coco e cupuaçu, que são vendidos nas feiras de Santa Isabel do Pará. No período de entressafra da agricultura, algumas famílias trabalham na extração de pedra.

Fontes consultadas:

IAP & Programa Raízes
Terra de Negro 2 , Instituto de Artes do Pará & Programa Raízes, Belém, 2004.

NAEA
Quilombos do Pará , cd-rom, NAEA-UFPA & Programa Raízes, Belém, 2005.




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