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FESTAS E TRADIÇÕES DOS QUILOMBOLAS DE SALVATERRA
Carimbó, lundun, boi-bumbá e o mastro de santo fazem parte da tradição das comunidades quilombolas do município de Salvaterra, na Ilha de Marajó. Luzia Bethânia Alcântara, que nasceu na comunidade de Mangueiras e é conhecida pelo agrado de Beth, conta um pouco sobre o mastro do santo:
"Em quase todo município é feita a colocação do mastro do santo. O mastro é um pau, tirado de árvore, descascado todinho. Tem comunidade que o pinta de várias cores.
Contrata-se uma banda de música, com saxofone, trombone. É uma música bem animada.
Tem o mastro feminino e o masculino. As mulheres trazem o mastro feminino, dançando bastante.
Nesse trajeto, as pessoas soltam tiros de pistola e foguete e oferecem bebida. Muitas comunidades oferecem uma bebida nativa chamada tiborna. Ela é feita da mandioca ralada e fermentada. Com dois ou três dias a gente côa e deixa apurar.
As pessoas tomam essa bebida até chegar a um determinado local onde está uma bandeira. Para este local é levado o mastro do santo que acompanha também todo o trajeto.
No final as pessoas dançam e enterram o mastro num buraco. Depois de enterrado o mastro, dançam ao redor dele com o santo e é aquela festa!
No dia seguinte, as pessoas derrubam o mastro e o levam para dentro da sede. A pessoa que dá a última machadada é que fica responsável pelo mastro no ano seguinte. É uma festa muito bonita!"
Quando indagada sobre o que gostaria que fosse divulgado sobre as comunidades quilombolas de Salvaterra, Beth nem hesitou em responder: o carimbó!
"O carimbó está no sangue do marajoara! Eu não conheço ninguém que não goste de dançar o carimbó. O carimbó é uma mistura de três raças: do branco, do índio e do negro. Primeiro num instrumento chamado corimbo. Um pedaço de tronco oco que era do índio e quando o negro chegou, ele tirou a pele do animal e cobriu ali para tirar o som. Com a entrada do branco, os portugueses que dançavam girando, aí o negro pegou a ginga e fez o gingado da cintura com o levantar das mãos do branco mais a bateção de pé das danças indígenas. Então ela tem uma sensualidade muito boa que dizem que é do negro, né! O carimbó era e é dançado em qualquer festa que tem".
A "mistura das três raças" mencionada por Beth vem desde a época da ocupação da Ilha de Marajó nos séculos XVIII e XIX. Nesse período se instalaram na região grandes fazendas de pecuária extensiva, onde trabalharam negros, índios e mestiços.
Além dos grandes proprietários, estabeleceram-se na ilha pequenos sitiantes que viviam da agricultura de arroz, milho e mandioca, bem como da atividade pesqueira e extrativista.
Essa estrutura fundiária pouco mudou desde então. Até hoje existem na Ilha de Marajó latifúndios margeados por pequenas propriedades rurais. Muitas destas foram formadas por escravos fugitivos. Outras foram herdadas ou compradas por negros ou mestiços livres.
O quilombo de Mangueiras, em Salvaterra, foi o epicentro das várias comunidades existentes atualmente neste município. Até hoje os laços entre as diversas comunidades quilombolas da região se mantêm. Entre as comunidades de Salvaterra há um intercâmbio intenso que envolve festas, casamentos e caminhos. Muitos moradores, para chegarem à sua comunidade, têm de passar por dentro de outra. Para se chegar do centro de Salvaterra a Mangueiras, por exemplo, é necessário passar por dentro de Caldeirão, distante três quilômetros da cidade.
As mulheres e homens quilombolas de Salvaterra são unidos também na luta contra os grandes fazendeiros. A situação é muito grave: "Lá as casas ficam cercadas, e o gado solto", explica Beth.
Beth relata que o principal problema enfrentado pelas comunidades é o avanço das cercas das fazendas para dentro dos quintais:
"O conflito de terra no Marajó é muito grande. Porque é assim: o fazendeiro antigamente empregava as pessoas na comunidade e dizia 'olha fulano, estou passando essa cerca aqui, perto da tua casa, para o gado não invadir, não entrar no teu quintal'. Então, quer dizer, ele ia enrolando as pessoas e ia colocando a cerca.
As pessoas inocentemente deixavam, pensando que aquilo era para proteger o quintal deles quando na verdade era para dominar a área, como de fato é hoje. Isso é em todas as comunidades. Por mais que a cerca não esteja passando nos fundos do quintal ou na frente da casa, tem cerca".
As comunidades de Bacabal e Paixão são as mais prejudicadas com esse processo.
Estão sem espaço para as roças, para a construção de novas casas e para a extração de madeira. Em Bacabal, uma fazendeira chegou a proibir o acesso da comunidade ao rio e ao cemitério.
Na busca da garantia dos seus direitos, as comunidades quilombolas de Salvaterra (Bacabal, Paixão, Mangueiras, Deus Ajude, Salvar, Siricari, Caldeirão e Campinas) vêm exigindo do INCRA e do ITERPA a titulação de suas terras.
Conheça mais:
• Entrevista com Beth, Jane e Lina, mulheres quilombolas da Ilha de Marajó
Veja também:
Festas e tradições dos quilombolas de Salvaterra
Fontes consultadas
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