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DONA PÁSCOA FALA SOBRE CAMIRANGA
Dona Páscoa é moradora de Camiranga e atual presidente da associação da comunidade, conhecida por Centro Comunitário de Camiranga. Ela nos conta um pouco da sua luta junto com a comunidade:
"Sou mulher e quilombola, na minha comunidade atravesso dificuldades muito grandes. Até devido à discriminação (...) Em 1997, foi que eu tomei a frente. Me convidaram para o 1º Encontro das Comunidades Negras do Pará em 1998 e eu entrei na marra mesmo. E aí foi que eu entrei na luta mesmo e, graças a Deus, eu estou nisso. Eu já consegui muitas coisas para minha comunidade, que é muito pobre. Nós já conseguimos telefone e um colégio. Hoje depois de muita luta nós conseguimos o segundo grau, porque antes era uma dificuldade muito grande para estudar. Os jovens saíam para outra comunidade e às vezes não iam nem estudar, se jogavam nas drogas, aí estava cada vez mais ficando difícil".
Graças a esta mobilização, a comunidade conta atualmente com três escolas: uma estadual e duas municipais.
A comunidade quilombola Camiranga está situada na divisa dos Estados do Pará e do Maranhão, no município de Concórdia do Pará, em região conhecida como Gurupi.
Assim como as demais comunidades quilombolas da região do Rio Gurupi, foi formada no século XVIII principalmente por escravos fugidos das fazendas de arroz e algodão do Maranhão.
No final do século XIX, os quilombolas começaram a explorar o ouro das minas da região.
A atividade assumiu papel central na vida da comunidade. Camiranga tinha até uma fundição própria e centralizava o comércio de ouro da região. Com o esgotamento do ouro, a comunidade empobreceu e teve de buscar novos meios de subsistência. O cultivo de tabaco e de arroz foram as principais atividades que lhes possibilitaram a sobrevivência.
Hoje, as 122 famílias de Camiranga sobrevivem da roça, do extrativismo e da pesca. Dona Páscoa conta que plantam mandioca, milho, arroz, feijão e melancia e coletam cupuaçu, açaí e bacuri. O excedente, principalmente de arroz e de mandioca, é vendido nos municípios da região.
Com o apoio do Programa Raízes, no ano de 2002, a comunidade conseguiu implantar uma casa de farinha. No entanto, Dona Páscoa conta que as dificuldades para o desenvolvimento das atividades agrícolas e comercialização da produção persistem:
"Ainda outra dificuldade é o transporte. Nós temos hoje a casa de farinha e nossa maior dificuldade é o transporte da mandioca, porque é longe o lote, a nove, dez quilômetros. E também precisamos de um projeto para o plantio da mandioca, que a gente ainda não tem. Eu já pedi um trator que a gente pudesse arar a roça, ou mesmo uma carroça para transportar, mas até hoje não consegui. A gente não tem estrada".
Dona Páscoa conta que foi grande também a luta para garantir as terras da comunidade, que foram parcialmente tituladas pelo governo do Estado do Pará em 2002.
Em 1968, a área em que está situada Camiranga foi ilegalmente apropriada pela Companhia Paraense de Desenvolvimento Agropecuário, Industrial e Mineral do Estado do Pará (CIDAPAR), através de uma operação de grilagem. Dois anos depois a CIDAPAR faliu, e as terras começaram a ser vendidas para outras empresas. Nas décadas de 1970 e 80, intensificou-se a grilagem e diversos fazendeiros foram se apropriando das terras da região.
Em 2002, uma área de 320 hectares foi titulada pelo ITERPA, o que corresponde a apenas uma parte de sua área total. Por isso a comunidade reivindica junto ao governo estadual a ampliação da área regularizada.
Festas e celebração
Mas não é apenas de luta que vivem os quilombolas em Camiranga, pois esta é uma comunidade muito festiva. A principal comemoração em Camiranga é a festa de São Benedito, o padroeiro da comunidade, que se inicia no dia 17 de dezembro, quando é levantado um mastro enfeitado com frutas, com o retrato. Depois disso, passam alguns dias rezando novenas até que no dia 24 dançam o tambor de crioula a noite toda. A comemoração se encerra no dia seguinte com uma festa dançante.
O tambor de crioula é dançado apenas pelas mulheres, que vestem saias vermelhas, largas e compridas, e um pano amarrado na cabeça. Os homens batucam os tambores para elas dançarem.
Além disso, os quilombolas de Camiranga também comemoram a festa de São Sebastião, em janeiro, e a festa junina, animada por quadrilhas e pelo boi-bumbá.
Fontes consultadas
Entrevista realizada com Páscoa Alves de Macedo, em 18/05/2005.
ACEVEDO MARIN, Rosa Elizabeth.
Camiranga: mudanças nas antigas terras de preto . Núcleo de Altos Estudos Amazônicos, Universidade Federal do Pará, Belém, dezembro de 2000.
ACEVEDO MARIN, Rosa Elizabeth.
Terras de preto da região de Gurupi - Pará . Núcleo de Altos Estudos Amazônicos, Universidade Federal do Pará, Belém, outubro de 1998.
Saiba mais sobre as comunidades da região nordeste:
A luta pela terra em Igarapé Preto
O Cunvidado em Tomásia
Dona Páscoa fala sobre Camiranga
A luta pela preservação dos açaizeiros em Cacau
Itacoã - a conquista da titulação
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