Você está em:
  Comunidades Quilombolas no Brasil Estado do ParáSaiba mais sobre as ComunidadesNordeste Itacoã - a conquista da titulação


ITACOÃ - A CONQUISTA DA TITULAÇÃO


A comunidade quilombola Itacoã Miri está situada no município do Acará, na região conhecida como Baixo Acará, a cerca de uma hora de barco de Belém.

Nesta mesma região, são conhecidas também as comunidades quilombolas de Guajará, Igarapá Jacarequara, Espírito Santo, Carananduba, Monte Alegre, São Pedro, Boa Vista, São Miguel, Santa Maria, Paraíso, Itaporama e Tapera.

Ao longo do século XVIII e no começo do século XIX, o Baixo Acará foi uma das maiores áreas de produção canavieira do Estado do Grão-Pará. Os escravos eram bastante utilizados no trabalho de plantação de cana. Além disso, também trabalhavam nos plantios de cacau, arroz, algodão, mandioca e na criação de gado.

Os quilombos do Baixo Acará se originaram das fugas de escravos das fazendas e olarias da região. Situavam-se nas proximidades de Belém, o que os ajudou na integração econômica, mas também contribuiu para serem mais facilmente encontrados pelas expedições de captura de escravos fugidos.

O Baixo Acará foi também um dos primeiros locais do Pará onde começou o movimento da Cabanagem. No início do século XIX, período de declínio da produção canavieira, o Vale do Acará foi palco de muitos conflitos. Isso contribuiu para que se formassem muitos quilombos na região.


Origem da comunidade

A comunidade de Itacoã foi formada onde no final do século XIX existia a fazenda Itanquãm , de propriedade do capitão Antônio Clemente Maciel de Farias. Com sua morte, a fazenda ficou para seus descendentes, que passaram a arrendar as terras para os antigos escravos da fazenda. É o que nos conta o quilombola José Carlos Galiza, morador da comunidade Guajará:

"Itacoã e Guajará não são comunidades de negros fugidos. Eram fazendas de escravos e a gente, por causa da abolição e da falência dos proprietários, ficou lá, permanecemos lá. Tinha a senzala, a casa grande".

Ao longo da década de 1970, a construção da estrada PA-150 valorizou as terras da região acirrando a disputa pela terra. Diversos fazendeiros e empresários começaram a se dizer donos das terras, entrando em conflito com os antigos ocupantes quilombolas. Os moradores de diversos quilombos do Baixo Acará vivenciaram situações de despejos, ameaças e destruição de suas casas e roças.

Para enfrentar essa situação, os quilombolas de diversas comunidades da região se organizaram e começaram a lutar na defesa de seus direitos. Ao longo da década de 1990, os quilombolas de Itacoã, com apoio da Comissão Pastoral da Terra, se mobilizaram ativamente nesse movimento.

Em 2002, a comunidade conseguiu que o governo do Pará promulgasse o Decreto 5.382 , de 12/07/2002 declarando de utilidade pública, para fins de desapropriação, os imóveis rurais situados no seu território.

Esse foi o primeiro passo para a titulação, que ocorreu em novembro de 2003. O território foi finalmente titulado em nome da Associação Remanescentes de Quilombos "Filhos de Zumbi" pelo Instituto de Terras do Pará com 968,99 hectares.


Um pouco da vida dos quilombolas de Itacoã

As 96 famílias quilombolas de Itacoã sobrevivem principalmente da roça da mandioca. Plantam mandioca em pequenas roças, localizadas perto das casas dos comunitários. Produzem muita farinha para seu consumo e para ser vendida na cidade. Além disso, também coletam açaí e frutas, tais como cupuaçu, pupunha, biriba e uxi para comercializar na cidade de Vigia.

O centro comunitário é formado pela igreja, um campo de futebol, um salão de festas e uma escola que oferece aulas até a 4ª série do ensino fundamental, em classe multisseriada.

A igreja é dedicada a Nossa Senhora de Montesserrate, santa de devoção dos católicos do povoado. Todo ano, no dia 3 de fevereiro, os comunitários realizam uma procissão em homenagem à santa. Além disso, eles também realizam a procissão de Santa Maria, no dia 1º de maio, dando início à festa da santa. Em janeiro comemoram a festa de São Sebastião.


Fontes consultadas:

MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo.
Itacoã, nosso sítio no Baixo Acará , Belém, 2003.

Entrevista realizada com José Maria Alves Monteiro (morador de Itacoã) e José Carlos Galiza (morador de Guajará) em maio   de 2005.




Saiba mais sobre as comunidades da região nordeste:

A luta pela terra em Igarapé Preto
O Cunvidado em Tomásia
Dona Páscoa fala sobre Camiranga
A luta pela preservação dos açaizeiros em Cacau
Itacoã - a conquista da titulação