O PROJETO DE EDUCAÇÃO DIFERENCIADA
A experiência educacional de Conceição das Crioulas é considerada hoje uma referência para o movimento quilombola e outras organizações que trabalham com educação.
A comunidade construiu um projeto de “educação específica e diferenciada” que trabalha com uma concepção de educação em que “os valores, a cultura, os costumes, as tradições, a sabedoria das pessoas mais velhas e a história dos antepassados fazem parte do processo histórico da comunidade”, servindo de “inspiração e reafirmação do ser quilombola” (AQCC: 2007).
A iniciativa surgiu como resposta à discriminação e ao preconceito que os quilombolas vivenciavam, como explicam os educadores da comunidade:
Desde muito cedo fomos ensinados a negar nossa cor e a nos aceitar como “moreninhos”, escondendo nossas raízes ancestrais. Tudo isso porque ser negro era feio, sinônimo de escravidão. E quem quer ser feio? Escravo? Em 1995, surge na comunidade a escola Professor José Mendes, com turmas de 5ª a 8ª série, um sonho buscado durante vários anos. Começa então um trabalho de resgate da história local que propiciou aos alunos e alunas um maior conhecimento de sua identidade e o encontro de respostas para uma série de perguntas: Qual a nossa origem? Quem somos? O que queremos? Começávamos, assim, a entender que depois de sofrer tudo que havíamos sofrido, estar ali contando nossa história era sinônimo de muito orgulho e resistência (AQCC: 2003).
A escola Professor José Mendes foi inaugurada em 1995, fruto da mobilização e esforço da comunidade. Até então, os jovens só podiam cursar até a 4ª serie do Ensino Fundamental. A luta pela oferta de educação da 5ª a 8ª série do Ensino Fundamental na comunidade foi o início de uma jornada de mobilização em defesa do direito a uma educação diferenciada que contemplasse a realidade das comunidades quilombolas.
Uma questão importante levantada no início das discussões era que os professores que lecionavam em Conceição das Crioulas não eram naturais da comunidade, mas sim professores de fora que não compartilhavam do interesse local pela recuperação da história e da luta dos quilombolas. O currículo e o calendário eram também inadequados à história e organização do povoado.
Em 2000, a quilombola e educadora Givânia Maria da Silva foi eleita vereadora em Salgueiro pelo Partido dos Trabalhadores. Apresentou na Câmara Municipal um projeto de lei que visava criar um sistema municipal de educação diferenciado para as comunidades quilombolas de Salgueiro, mas o projeto não foi aprovado.
Em 2002, o Centro de Cultura Luiz Freire que já tinha experiência em trabalhar com educação diferenciada para os povos indígenas, iniciou um processo de formação de educadoras quilombolas. Desde então, essa organização tem sido um importante aliado na luta pela educação diferenciada para as comunidades quilombolas.
Em 2003, a aprovação da Lei 10.639/2003, que instituiu no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática História e Cultura Afro-Brasileira, motivou a comissão de educação da comunidade a realizar encontros mensais para discutir fundamentos teórico-metodológicos para a elaboração de uma proposta curricular diferenciada. Esses encontros integravam o Projeto “Educação e Etnia”, que tinha como objetivo principal “formular uma proposta de educação pautada nos moldes de vida do povo de Conceição das Crioulas e que pudesse servir de referência para outras comunidades quilombolas” (AQCC: 2007).
Entre os pontos da experiência que merecem ser destacados, vale dizer que, em Conceição das Crioulas, 90% dos professores são da própria comunidade, sendo que, em 2003, 22 professores quilombolas ingressaram no Ensino Superior. Além disso, a comunidade possui uma infra-estrutura organizada, com várias escolas atendendo aos quilombolas e a primeira biblioteca afro-indígena do Brasil.
Nas palavras dos educadores da comunidade, a experiência tem sido vitoriosa:
Com os conhecimentos adquiridos através do resgate da história local e o desenvolvimento de vários projetos pedagógicos, o povo começa a compreender que sua história tem um significado importante para a aceitação e valorização da auto-estima. Hoje, grande parte do nosso povo já se afirma enquanto negros e negras quilombolas, sem ter vergonha de se expor a preconceitos e estereótipos e se orgulham em pertencer a uma etnia de pessoas que se organizam e lutam em busca de seus ideais (AQCC: 2003).
Saiba mais:
Associação Quilombola de Conceição das Crioulas
O projeto de educação diferenciada
Artesanato local
Veja também:
Escravidão e resistência em Pernambuco
Articulação das Comunidades Quilombolas de Pernambuco
Conceição das Crioulas
Castainho
Serrote do Gado Brabo
Onze Negras
Timbó
Fontes de consulta
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