Você está em:
  Comunidades Quilombolas no Brasil Estado do Rio Grande do Sul Os Quilombos Rurais: do Litoral ao Interior do Estado Quilombo de Anastácia Enfrenta a Barragem Dificuldades Encontradas e o Abandono do Território


DIFICULDADES ENCONTRADAS E O ABANDONO DO TERRITÓRIO

Em 2006, as terras do quilombo de Anastácia estavam situadas bem no meio de uma propriedade particular, cujos proprietários passaram a restringir o acesso ao território, controlando a entrada e saída de familiares e visitantes. Essa situação foi o resultado de uma longa história de perdas sucessivas do território de origem.

A principal perda territorial sofrida pela comunidade foi nos anos 1950, quando a construção de uma barragem destinada a irrigar os arrozais das fazendas vizinhas inundou mais da metade do território quilombola. A drástica redução das terras impôs um grande limite às atividades de subsistência dos moradores do quilombo.

Em 1960, as dificuldades enfrentadas pela comunidade se intensificaram por conta da modernização das lavouras, que substituiu boa parte da mão-de-obra humana pelo uso de máquinas. Tal mudança desencadeou uma situação de desemprego entre os homens do quilombo.

Os quilombolas relatam que muitos fazendeiros avançaram sobre os limites de suas terras. Eles também sofreram pressões para a venda de parte das terras e as dificuldades econômicas enfrentadas por vezes os obrigavam a ceder a esse tipo de pressão. Há casos em que a situação de pobreza fazia com que os quilombolas trocassem parte de seu território por pequenos favores de fazendeiros, como a doação de remédios ou o transporte de doentes para a sede do município.

Esse cenário tão difícil resultou no abandono do território, na esperança de melhores condições de vida. Assim, da década de 1960 até meados dos anos 1990, as gerações mais jovens foram deixando sucessivamente o lugar de origem em busca de emprego em outras localidades, na região metropolitana de Viamão ou nos municípios de Gravataí e Porto Alegre.

Após a morte de Anastácia em 1983, esse processo se intensificou. Apenas os mais velhos, por falta de opção, permaneceram no quilombo, vivendo às custas de aposentadorias irrisórias e da ajuda de parentes e visitantes. Como relata a antropóloga Vera Rodrigues:

“A partir desse momento [da morte de Anastácia], aos poucos, vai ficando efetivamente só a primeira geração, os troncos velhos. Os demais recriam seus laços por municípios da região metropolitana, visitando ocasionalmente os que ficaram, e mantendo suas casas no local, talvez como forma de marcar seu pertencimento aquele território. Lá, também fica a casa onde Anastácia viveu, ‘a casa da vó’ onde os netos(as) conviveram com ela e onde os troncos velhos nasceram, fizeram seus bailes, enfim imprimiram suas marcas àquele território e constituíram uma identidade (...)” (RODRIGUES, 2006: 115).

A situação chegou a tal ponto que, no ano de 2006, o quilombo estava reduzido a apenas três famílias de idosos.


Saiba mais:


A história de Anastácia e seus descendentes
Dificuldades encontradas e o abandono do território
Reconstruindo o quilombo: a luta por direitos
Saiba mais sobre o processo de titulação do quilombo de Anastácia