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A HISTÓRIA DE ANASTÁCIA E SEUS DESCENDENTES

Anastácia Gomes de Souza, fundadora do quilombo, nasceu no ano de 1896 na localidade de Estância Grande dos Campos de Viamão. Embora não existam dados concretos, para a antropóloga Vera Rodrigues (2006), tudo indica que ela tenha sido filha e neta de escravos, e que seu pai teria sido liberto.

Aos 23 anos, Anastácia recebeu de herança uma porção de terras. Quando se casou, Anastácia e seu marido Olímpio de Souza Gomes foram viver nas terras herdadas. Olímpio trabalhava como peão das fazendas vizinhas, cuidando do gado. Já Anastácia cuidava da horta, do pomar e da criação de animais no território da família.

Anastácia viveu na companhia do marido até a década de 1950, quando ficou viúva. A partir de então, enfrentou grandes dificuldades econômicas, tendo que criar e sustentar sozinha os oito filhos que tiveram. Por essa razão, os filhos de Anastácia abandonaram a escola e começaram a trabalhar cedo para ajudar a mãe.

Ao longo de três gerações, a família de Anastácia garantiu o seu sustento por meio do trabalho nas granjas de arroz vizinhas ao território, atividade realizada principalmente pelos homens. As mulheres trabalhavam no corte de capim Santa Fé, muito utilizado para a cobertura paisagística de casas e outras construções (RODRIGUES, 2006). Apesar de ser uma planta valiosa, o capim era vendido a preços bem baixos para terceiros que, por sua vez, o revendiam por valores muito mais elevados.

Anastácia morreu no ano de 1983, deixando filhos, netos e agregados no território de origem. A morte de Anastácia representou uma grande perda para a comunidade, que é sentida até os dias de hoje. Seus descendentes a lembram como uma mulher forte, que lutou e resistiu apesar de todas as dificuldades encontradas.

“Pra mim, quando ela morreu foi um aparte do mundo que caiu. Eu perdi a guerreira das terra dentro da fazenda! Ela era minha mãe, minha madrinha e minha vó. Era tudo que eu tinha na vida. Minha vó era bugra, do sangue azul que ela tinha. De pé no chão, sempre plantando, tirando leite, capinando” [Clarice, 51 anos, neta, — Trecho da entrevista que me foi concedida em 14/01/06 (RODRIGUES, 2006: 104)].

A antropóloga Vera Rodrigues (2006) conta que Anastácia é uma pessoa muito querida por todos, quase uma santa. Ela é narrada como a curandeira, a benzedeira e a parteira da comunidade, além de ter cuidado da horta como ninguém. Suas práticas de cura com ervas foram ensinadas às gerações seguintes e se perpetuaram mesmo entre aqueles que vivem fora do território da comunidade. A casa onde morou Anastácia é preservada por seus descendentes até os dias de hoje como um patrimônio do grupo.


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