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RECONSTRUINDO O QUILOMBO: A LUTA POR DIREITOS

“Desde criança eu era invocado com esse negócio de terra.
Desde os sete, oito anos queria ser advogado. Queria
recuperá a terra dos nego. Não era justo... afinal será que é o
pai que não lutou ou é a gente que não tem direito?
Como é que os branco tem essa montuera de terra?”
(Sr. Antônio, líder da comunidade de Anastácia, apud RODRIGUES, 2006: 118).

Desde que descobriram que seus direitos estavam garantidos pela Constituição Federal, os descendentes de Anastácia lutam pelo título da terra como forma de impedir a desintegração da comunidade. Uma figura central em toda essa luta é seu Antônio Costa, descendente de uma outra família de ex-escravos, os Gomes de Souza, que também perdeu seu território de origem ao longo dos anos.

Na juventude, Antônio morou junto de seus pais em uma área muito próxima às terras de Anastácia, mantendo relações de amizade com aquela família. Antônio teve filhos com uma das netas de Anastácia, o que estreitou ainda mais os seus laços com tal quilombo.

Antônio nunca se conformou com as injustiças cometidas contra os negros. Até que um dia, na ocasião das comemorações dos 500 anos do Brasil, tomou conhecimento dos direitos das comunidades quilombolas. Além de “Seu Antônio”, os demais parentes de Anastácia também tomaram conhecimento de seus direitos no contato com outras comunidades da região que estavam com essa discussão mais adiantada, como a de Manoel Barbosa, em Gravataí.

A partir de 2004 as três gerações de descendentes de Anastácia decidiram lutar pela reconquista do território. Desde então, a maioria das famílias que saíram de lá tem manifestado o desejo de retornar às terras herdadas pela “vó Anastácia”. Para tanto, precisam de melhores condições de sobrevivência no local, e isso só será possível com a titulação da terra. Assim nos conta Berenice, neta de Anastácia:

“Eu quero voltar pra lá, porque lá é o meu lugar. Se tivesse condições... é porque falta médico, escola, né. Quando criança lembro que tinha que caminhá uma hora e meia, duas horas pra estudá e não estudei tudo que pude. Hoje, não só eu, mas muitos voltariam, porque é lá que nós nascemo, é lá que é a nossa raiz, que é o nosso umbigo!” (apud RODRIGUES, 2006: 127).

Nesse período, os quilombolas de Anastácia encaminharam uma declaração de auto-reconhecimento à Fundação Cultural Palmares e, em 2005, deram entrada com o pedido para abertura do processo de titulação junto ao Incra. No mesmo ano, foi fundada a Associação do Quilombo da Anastácia que elegeu como presidente seu Antônio.


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