ORIGEM DA COMUNIDADE
A comunidade de Rincão dos Martimianos se originou do casamento de Martimiano Rezende de Souza com Alzira Martins de Carvalho, a filha mais nova de Geraldo de Carvalho, fundador da comunidade de São Miguel. Ambas as comunidades estiveram ligadas, desde a origem, por laços de parentesco e reciprocidade.
Martimiano era filho de uma escrava chamada Maria Joaquina e de seu senhor, Delfino Souza. Delfino possuía uma estância em Caçapava do Sul, onde Martimiano vivia. Apesar de terem sido reconhecidos pelo pai, Martimiano e seus irmãos, Ernesto e Anja, sofreram diversas formas de preconceito. A discriminação enfrentada por eles — filhos de uma escrava com um senhor — os levou a abandonar o local de origem em busca de outro território. Assim nos explica o pesquisador Silva:
“O relato dos descendentes de Martimiano deixa antever que a situação social ambígua dos irmãos, situação essa estigmatizada pela sociedade local de mentalidade escravocrata, carregada de preconceito racial, social e cultural em relação aos negros, fez com que eles se rebelassem contra a imposição de um padrão injusto e perverso que não permitia o acesso a uma condição social e humana plena, seja aos escravos, ex-escravos, negros libertos ou aos seus descendentes” (SILVA, 2004: 158).
No final do século XIX, Martimiano e seus irmãos partiram da fazenda de Delfino para a região onde se localiza o atual município de Restinga Seca. Lá conheceram o quilombo de São Miguel, formado pela família de Geraldo de Carvalho. Posteriormente, eles retornaram à fazenda de Delfino para buscar a mãe.
Do primeiro casamento com uma moça da região, Martimiano teve duas filhas: Matilde e Palmira. Depois, casou-se com Alzira Martins de Carvalho e teve mais 11 filhos: Izidoro, Delfino, Geraldo, Maria Joaquina, João, Pedro, Atanázio, Abelino, Maria Florisbela, Martimiano Filho e Manoel (SILVA, 2004: 160). Martimiano, sua esposa Alzira e seus 13 filhos deram origem à comunidade de Rincão dos Martimianos.
Além de São Miguel e Rincão dos Martimianos, a região do planalto central rio-grandense-do-sul foi abrigo de outras comunidades negras como a dos Cavalheiros, a de Varginha e a de Campestre. No período logo após a abolição da escravatura, os antigos escravos dessas comunidades tinham como fonte de renda o trabalho com o corte de lenha. A lenha extraída era levada para Restinga Seca para o abastecimento da Viação Férrea, um dos principais meios de transporte da região (SILVA, 2004: 183). Ela também era transportada para lugares mais distantes, como Cachoeira do Sul e Porto Alegre. As comunidades também se sustentavam por meio de outras atividades, como os serviços de transporte de tijolos e alimentos (SILVA, 2004: 183).
Com a renda obtida nessas atividades, Martimiano e sua família conseguiram se consolidar no local, construindo um engenho de farinha em seu território. A criação do engenho uniu ainda mais as comunidades de São Miguel e Rincão dos Martimianos, já que ambas passaram a trabalhar juntas, tendo como principal atividade econômica a produção de farinha de mandioca e polvilho. Com a farinha de mandioca, também faziam beijus. A farinha produzida era distribuída a outras regiões como Cachoeira do Sul, Santa Maria e Porto Alegre (SILVA, 2004: 184). Esse período inicial é lembrado pelos membros da comunidade como de maior prosperidade no quilombo.
Saiba mais:
• Origem da comunidade
• A luta pelo território de origem
• Acompanhe o processo de titulação do território de Rincão dos Martimianos
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