FESTA, RELIGIOSIDADE E DEVOÇÃO

O maçambique é a manifestação religiosa mais importante da comunidade de Morro Alto, e é realizado por seus moradores desde o século XIX. Tal folguedo conta a história do negro que, sob qualquer circunstância, é protegido por Nossa Senhora do Rosário. Para os quilombolas, dançar o maçambique é uma forma de retribuir à santa o cuidado que ela dedica a cada um de seus devotos. Em função disso, se porventura o maçambique não ocorre, toda a comunidade perde em bênção e proteção.
Alguns habitantes de Morro Alto contam que o maçambique chegou ao Brasil trazido pelo rei da África. O monarca teria atravessado o oceano para trazer aos cativos uma dança que pudesse aliviar os sofrimentos aos quais estavam submetidos e, também, acabar com a escravidão (BARCELLOS et al, 2004: 67).
A origem africana do festejo revela-se nas personagens principais do maçambique: o rei Congo e a rainha Jinga. O rei Congo e a rainha Jinga são figuras históricas que, no século XVII, lideraram a resistência de Congo e de Angola, respectivamente, à presença portuguesa. Esses reis simbolizam, no imaginário popular, a reação angolana e congolesa a Portugal e à escravidão.
Além dos reis, outras figuras de destaque do maçambique são os tocadores de tambor, denominados tamboreiros; os responsáveis pela organização da festa, chamados festeiros; e os dançantes. Estes últimos são os membros da comunidade que cantam e dançam em louvor a Nossa Senhora do Rosário. Os dançantes portam, em suas pernas, uma espécie de guizo, denominado massacraia, que é utilizado para representar o som das correntes usadas pelos escravos que fugiam dos maus-tratos de seus senhores.
Segundo os quilombolas, o maçambique é dançado em Morro Alto desde o momento em que um escravo, minutos antes de sua morte, livrou-se da forca. Seu senhor desistiu de matá-lo porque tal cativo havia sido sorteado para ser o festeiro da comemoração de Nossa Senhora do Rosário daquele ano. Para a comunidade, a santa que amparou o escravo em perigo precisou sofrer muito para ajudar os seus protegidos. Nas palavras de Dona Aurora, moradora da comunidade,
“Nossa Senhora andou por aí tudo. Passou fome, passou frio, atravessou o mar e chegou aqui, e entregou a bandeira para nós, para os negros” (apud BARCELLOS et al, 2004: 265).
A bandeira, mencionada por Dona Aurora, simboliza a relação da comunidade Morro Alto com a santa. Ela é carregada em todas as ocasiões em que ocorre o maçambique.
Houve um tempo em que o maçambique era dançado no Natal e no dia de Reis. Atualmente, ele é realizado em maio, quando acontece o maçambique de São Benedito, e no mês de outubro, momento em que ocorre o maçambique do Rosário.
Em tais ocasiões, toda a comunidade se vê envolvida. Os quilombolas tornam-se ajudantes dos festeiros, co-financiadores ou, simplesmente, participantes do folguedo. Além disso, nesses momentos os habitantes de Morro Alto recebem seus parentes que vivem em outros locais, como Osório, Capão da Canoa e Porto Alegre.
O maçambique de São Benedito ocorre em Aguapés, um dos povoados que forma o território de Morro Alto. A festa dura dois dias e é realizada em um fim de semana próximo ao dia 13 de maio, o dia da abolição da escravatura. Em tal ocasião, o principal momento da festa é o encontro da imagem de São Benedito com a de Nossa Senhora do Rosário.
Já o maçambique do Rosário ocorre na cidade de Osório, nos dias próximos ao feriado de 12 de outubro, dia de Nossa Senhora da Aparecida. O primeiro dia de festa é destinado a buscar Nossa Senhora do Rosário na igreja central de Osório. Um grupo de devotos, acompanhado dos reis da comemoração, se dirige à igreja para chamar a santa, que já está ornamentada e posta no andor. Em romaria, os quilombolas levam a imagem de Nossa Senhora até um carro de bombeiros, que a transporta até a Igreja Caravágio. O veículo é seguido por membros da comunidade, representantes de instituições e autoridades locais.
Em frente à igreja, uma multidão aguarda a chegada da imagem da santa. Nossa Senhora é posta no salão ao lado da igreja. Após os discursos das autoridades, os dançantes enfileiram-se na frente do casal de reis e começam a dançar, ao ritmo dos tambores. Ao final desse dia, o grupo se dirige novamente até a Igreja Caravágio para iniciar o tríduo com uma missa. Após a missa, os devotos voltam para o salão, onde iniciam novamente uma série de danças.
O segundo dia de celebração inicia-se com a chegada dos maçambiqueiros à casa da rainha da festa, que os recebe com café-da-manhã e almoço. Após a refeição coletiva, os dançantes e os reis vão a pé para o salão que abriga Nossa Senhora. Como no primeiro dia de festa, eles cantam e dançam. À noite, os devotos vão à igreja para a missa e o tríduo em homenagem à santa e, posteriormente, retornam ao salão para dançar o maçambique. O dia é encerrado com um jantar em que participam os membros da comunidade Morro Alto.
O terceiro dia do maçambique do Rosário é dedicado ao pagamento das promessas feitas por membros da comunidade a Nossa Senhora. Os maçambiqueiros são recebidos pelos pagadores de promessas em suas residências, e dançam em louvor à santa como forma de agradecimento pela graça concedida ao dono da casa. Em retribuição, os pagadores de promessas oferecem almoço e uma mesa de doces aos maçambiqueiros. À noite, os membros da comunidade de Morro Alto jantam no salão da Igreja Caravágio e, nesse mesmo local, participam de um baile.
O domingo, último dia da festa, inicia-se com o tríduo e uma missa pela manhã. Após o encerramento dessas atividades, os devotos saem da igreja e realizam uma procissão. Esse momento é marcado pela grande quantidade de pessoas que pagam promessas. É o caso de muitas mães que vestem seus filhos pequenos de maçambiqueiros.
O dia também é marcado por um grande almoço. Qualquer pessoa pode participar dessa refeição, mediante o pagamento de ingresso. O almoço de encerramento costuma reunir, além dos quilombolas de Morro Alto, pessoas ligadas ao movimento negro, intelectuais, folcloristas, políticos, religiosos católicos, autoridades locais, moradores de Osório e localidades vizinhas.
Depois da refeição, os maçambiqueiros retomam sua dança, cujos movimentos são diferenciados daqueles executados nos outros dias. É realizado, ainda, o sorteio para a escolha dos organizadores do próximo maçambique do Rosário. Após o sorteio, o antigo casal de festeiros passa a bandeira do Rosário para os novos e estes oferecem aos dançantes uma mesa de doces, em agradecimento. No encerramento da festa, há a execução de danças do lado de fora da igreja, bem como um cortejo com Nossa Senhora do Rosário. Por fim, um baile de confraternização encerra as comemorações.
O outro momento de realização do maçambique é para o pagamento de uma promessa feita por alguém da comunidade. Nessas ocasiões, o pagador da promessa oferece uma refeição coletiva — que pode ser, por exemplo, um churrasco ou uma mesa de doces — aos maçambiqueiros. Estes dançam em louvor a Nossa Senhora na casa de quem pediu a graça.
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