ORIGEM DA COMUNIDADE
A origem da comunidade de São Miguel remete ao final do século XIX. Foi nessa época que o escravo Geraldo se rebelou contra seus senhores da família Martins Pinto e fugiu para a fazenda vizinha, pertencente à família dos Carvalho. Os integrantes da comunidade consideram a fuga de Geraldo como um marco para a sua história, pois representa a insubmissão de um escravo diante de relações injustas e autoritárias por parte dos senhores de terra.
Os Martins Pinto eram proprietários de uma das duas grandes sesmarias existentes no local. No início do século XIX, a região central do Rio Grande do Sul, então Província de São Pedro, foi dividida em sesmarias que eram grandes extensões de terra concedidas oficialmente pela coroa portuguesa. Os proprietários dessas duas sesmarias pertenciam a famílias muito poderosas na província cujos membros ocuparam cargos políticos, militares e religiosos (ANJOS, 2004: 46).
Foi na fazenda dos Martins Pinto que Geraldo nasceu e viveu. Lá se casou e teve filhos. Idelmiro Carvalho, neto de Geraldo de Carvalho, nos conta quais foram as razões que levaram seu avô a fugir para a fazenda dos Carvalho:
“O falecido meu avô era um homem terrível, temível que ele era. Um homem que tinha cada braço! O maior campeiro que foi visto aqui, no laço, foi ele. Ele foi criado com os Martins. O meu avô era dos grandes dessas terras aí. O nome do pai dele chamava-se Eliseu. Os Martins tinham medo dele. Os Martins tinham uma sistemática que não podia cruzar um coitado nessas terras. Tudo isto aqui era Martins, ia lá na Serra e até um lugarzinho pra cá de Santa Maria. Tão poderoso de rico que era começou a vender, vender terra por aí.
Naquele tempo, cruzava alguém e já diziam ‘não é daqui’. É um ladrão, de certo. Saíam, cuidavam e perseguiam, matavam e atiravam na lagoa. E matavam até os pobres negros escravos.
Aí o vô Geraldo dizia que estava existindo malvadeza. Os Martins disseram, nós que fizemos aqui e o que fizemos está bem feito e pronto.
E o falecido vovô sempre procurando mudar. Eles moravam numa tal Estância Velha e faziam as artes deles.
E um dia estavam no campo campereando e eles disseram: ‘arruma essas rês aí Geraldo? Arruma senão vai ver o que acontece pra ti!’.
- ‘O que vocês disseram?’ – respondeu Geraldo. – ‘Agora vou mostrar pra vocês.’
E o vovô Geraldo carregava uma faca desse tamanho e dessa largura. ‘Agora eu vou degolar o meu senhor’. E eles se viram enroscado, nem se lembraram do pistolão com balas que tinham.
Um disse: ‘escapa que esse mulato Geraldo não é brinquedo”. Botou eles dentro da Estância Velha, dentro da casa.
Aí os patrícios que moravam lá disseram: ‘Ah! Geraldo não faz isso. Tu tirar pra fora eles pra matar, degolar, não, não. Isso aí não. Então tu te aquieta’.
Aí ele aceitou o conselho dos patrícios deles. ‘Eu vou embora daqui’.
Aí ele saiu e foi embora. Foi para os Carvalho, lá embaixo” (Idelmiro Carvalho apud ANJOS, 2004: 65-6).
Assim, Geraldo passou a trabalhar para os Carvalho, tendo adotado o sobrenome dessa família, que é o sobrenome atual de boa parte dos membros do grupo. Na época, os escravos eram obrigados a adotar o sobrenome de seus senhores.
Além de Geraldo, outra figura de grande importância para a comunidade é o ex-escravo Ismael Cavalheiro, “um negro valente que conhecia como poucos os campos e matos entre o Jacuí e o Vacacaí-Mirim (ANJOS, 2004: 57). Ismael era filho da escrava Amélia, irmã de Geraldo, e mantinha boas relações com as elites locais, já que era o principal escudeiro de um importante senhor da região.
Após a abolição da escravatura, Geraldo e Ismael passaram a ocupar uma área localizada na fronteira entre as duas sesmarias das famílias Martins Pinto e Carvalho. Até que, na última década do século XIX, os ex-escravos Ismael, Geraldo e seus filhos compraram oficialmente essas terras. E foi esse território que deu origem às comunidades de São Miguel e Rincão dos Martimianos.
Como a maior parte da província era composta por grandes latifúndios que se dedicavam à pecuária, as áreas de floresta, onde não era viável criar gado, eram relativamente baratas. Assim, foi possível a esse grupo de ex-escravos adquirir uma porção de terras nessa localidade. De acordo com o antropólogo José Gomes dos Anjos, a compra de terras por parte desses escravos foi estratégica:
“A abolição formal da escravidão significou para grande parte dos escravos uma armadilha, na medida em que toda uma série de dispositivos foi criada para manter o trabalho negro aprisionado. Uma das principais armadilhas era a imposição da condição de agregado que, mantendo o escravo preso às terras do senhor, permitia a continuação da extração da força do trabalho sobre novas roupagens. A principal estratégia dos ex-escravos para escapar das armadilhas pós-abolição formal foi adquirir terras próprias” (ANJOS, 2004: 35).
A aquisição de terras foi uma forma de resistência, uma maneira dos ex-escravos assegurarem a liberdade e a dignidade em um contexto de exploração da mão de obra negra mesmo após a abolição. No entanto, ao longo das décadas, a comunidade foi sucessivamente expropriada, e seu território foi reduzido a 45 hectares, dimensão insuficiente para garantir sua sobrevivência.
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