ORGANIZAÇÃO ECONÔMICA
SISTEMA PRODUTIVO
As
comunidades de quilombo do Vale do Ribeira praticam uma economia
que se assenta na mão-de-obra familiar e está orientada
prioritariamente para a satisfação das necessidades
do grupo doméstico.
Seu sistema produtivo se sustenta basicamente nas atividades agrícolas
e extrativistas. No entanto, muitas vezes os quilombolas também
realizam trabalho assalariado nas plantações dos grandes
proprietários de terras locais ou em centros urbanos, para
poderem complementar a renda familiar e adquirir alguns bens e utensílios
diversos não produzidos localmente.
"Vivemos em situação
muito difícil. Tem pessoas que saem da comunidade e vão
fazer serviço para fora. Daqui ainda tem gente que faz isso.
Tem duas pessoas que estão lá em São Paulo
pintando torres de energia elétrica. Tem muita gente daqui
que faz serviço na região de Eldorado, por aí.
Eles não vão morar, vão fazer o serviço
e voltam", conta Benedito Alves da Silva, morador
da comunidade de Ivaporunduva.
Além disso, criam animais de pequeno porte (tais como galinhas,
porcos, patos, cabritos e perus), que utilizam como alimento e como
eventual fonte de renda, e pescam nos rios e córregos da
região.
A extração que realizam é principalmente de
palmito, e também de produtos como sapé e taquara
(utilizados para cobertura de casas e fabricação de
utensílios).
A agricultura é bastante variada. São plantados arroz,
milho, feijão, mandioca, cana-de-açúcar, batata-doce,
algumas fruteiras (como abacaxi, maracujá, mexerica), hortaliças
(couve, cebola, alface, alfavaca, cebolinha, etc.) e alguns produtos
vegetais silvestres (tais como o coentro e o gengibre).
Algumas comunidades também cultivam banana para a comercialização.
De forma geral, esse cultivo é realizado apenas em pequena
escala, já que o transporte do produto para os centros consumidores
é bastante difícil. Por enquanto, apenas a comunidade
de Ivaporunduva conta com uma infra-estrutura mais desenvolvida
para a realização dessa atividade e comercializa a
banana em maior escala.
Tradicionalmente
a agricultura dessas comunidades era praticada em um regime chamado
coivara. Nessa técnica, a roça é aberta antes
do período das chuvas em local de mata densa, compreendendo
entre um e seis hectares. As vegetações rasteiras
e de pequeno porte são derrubadas, empilhadas em locais estratégicos
e deixadas por algum tempo para secar. As árvores maiores
são derrubadas e as pilhas de vegetação derrubada
são queimadas, o que ocorre logo antes de o plantio começar.
Inicialmente é plantado arroz e às vezes também
milho. Depois da colheita, o terreno é carpido e o feijão
é plantado. Depois o milho é novamente plantado.
Por três anos, essas plantações são
intercaladas. Passado esse tempo, o solo já perdeu sua fertilidade
inicial e a roça é abandonada. As terras permanecem
em descanso por períodos que variam entre 3 e 12 anos, até
que os nutrientes do solo se reconstituam tornando-a novamente atraente.
No regime de coivara a rotação entre as terras é
intensa, o que exige que as comunidades possam dispor de diferentes
áreas de plantio para intercalarem as plantações
ao longo dos anos.
A
partir de 1950, o sistema produtivo tradicional foi seriamente comprometido
em função da instalação de unidades
de conservação ambiental por todo o Vale do Ribeira.
Tais unidades de conservação impuseram limitações
de uso de terras a essas comunidades, impedindo a manutenção
de suas práticas agrícolas tradicionais e ameaçando
seriamente sua sobrevivência.
A agricultura de coivara continuou sendo praticada apenas nas porções
do território sobre as quais não incidiam restrições
ambientais ou em áreas menos acessíveis à vigilância
da fiscalização, que muitas vezes coincidiam justamente
com os piores lugares para a queima e o plantio.
Essa situação começou a reverter apenas na
década de 1990, quando os quilombolas conseguiram sensibilizar
os órgãos governamentais para sua causa, mas até
hoje ainda há comunidades que enfrentam esse problema. Entre
as medidas conquistadas está a alteração dos
Parques Estaduais Jacupiranga e Intervales de forma a excluírem
de seus limites as terras quilombolas.
Saiba mais sobre os
conflitos com as unidades de conservação
Veja também:
História
Organização Econômica
A Luta pela Titulação
dos Territórios
Conflitos com as Unidades
de Conservação
A Luta Contra
as Barragens
As Comunidades
Fontes Consultadas
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