Um grave problema vivido pela comunidade Arapemã é a extração ilegal de barro em suas terras. O barro é transportado até a cidade de Santarém e vendido a olarias por intermediários (donos dos barcos que fazem o transporte) ou por fazendeiros.
A extração de barro trás graves danos ambientais. A atividade resulta na destruição da mata. Árvores frutíferas que alimentam os peixes são mortas fazendo com que os peixes vão embora e a pesca seja prejudicada.
A extração em cada área é limitada, durando até o barro acabar. Assim, de tempos em tempos, os barreiros devem iniciar a atividade em novos locais, deixando para trás as áreas pelas quais já passaram esburacadas e poluídas.
Foi por esses motivos que os quilombolas do Arapemã começaram a se organizar e a lutar contra a extração de barro nas áreas da comunidade. A tensão na área aumentou muito e o barracão comunitário foi incendiado pelos queriam a extração do barro. Durante os conflitos, a importância do título da terra ficou ainda mais evidente, como nos conta Alba:
"Aí a gente entrou nessa luta, antes a gente não tinha entrado assim para reivindicar a titulação, a gente estava muito acomodado. Mas quando mexeram com o centro da nossa comunidade, com a igreja e o barracão comunitário, uma coisa que era nossa, aí nós resolvemos lutar para ver se a gente conseguia a titulação. Na medida que eles começaram a dizer que a gente não tinha um documento que provasse que as terras são da gente, aí a gente começou a lutar por isso".
A luta pelo fim da extração do barro foi bastante demorada e exigiu dos quilombolas de Arapemã bastante energia e mobilização. Alba relatou um episódio desta história: a reunião que aconteceu em agosto de 2004, organizada pelos Freis Franciscanos, pelo Ministério Público Federal e pela Polícia Federal, e que teve como resultado o fim da extração de barro de uma parte das terras do Arapemã ocupada por uma fazendeira:
"Então, depois de muito a gente ir, de muito a gente andar, que pelo menos o ano passado teve uma reunião muito grande lá no convento dos padres, lá no São Francisco. E ela parou de tirar barro de lá, do terreno da Santa Ana. Mas, em outros lugares, ainda continuava assim tirando. Na época que teve essa reunião ainda não tinha saído o laudo técnico do Ibama. Aqui nenhum desses barreiros tinha licença para estar tirando o barro. E eles disseram que só iriam parar quando saísse o laudo técnico. Aí o Ministério Público pediu o laudo para o Ibama e chegou. Quando chegou, ele mandou paralisar. Paralisou por uma semana. Aí eles voltaram, todo mundo de novo. Só que aí uma pessoa denunciou e o Ministério veio de novo, e pegaram um monte de barreiro lá dentro. A extração de barro foi suspensa de uma vez aqui no Arapemã. Só que tem alguns que sempre dão uma tirada aqui, passa uma semana e vem de novo".
Alba explica que cansados de lutar contra a retirada do barro e o problema nunca se resolver, os quilombolas passaram a priorizar a luta pela titulação de seu território:
"E a gente ficou andando para lá e para cá, a gente perdeu muito tempo. Ministério Público, Arapemã, Ministério Público, Arapemã... era assim. A gente andou demais para a gente conseguir que ela parasse lá de tirar o barro. Aí a gente resolveu parar de estar trabalhando lá e ir atrás da titulação, direcionar nosso trabalho para a titulação, que é o nosso objetivo principal. Então, depois que a gente tiver nossas terras aí em nossas mãos, a gente já sabe muito bem o que a gente vai querer fazer".
Leia nesta entrevista:
O problema do barro
A luta pela titulação da terra
A organização das mulheres
Saiba mais sobre a comunidade de Arapemã
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