Você está em:
  Mulheres Quilombolas • Arapemã A luta pela titulação da terra


COMUNIDADE QUILOMBOLA ARAPEMÃ - PA

A LUTA PELA TITULAÇÃO DA TERRA

Os moradores do Arapemã sofrem com a invasão de suas terras pelos fazendeiros e pelos búfalos. Por isso, conforme relata Alba, eles têm cada vez menos lugares para plantar:

"A gente no verão planta milho, feijão, milho, jerimum, melancia, roça. Com tudo isso a pessoa já consegue, vende, come mesmo do seu próprio plantio. Então já diminui um pouco a fome, porque às vezes o pessoal passa fome porque não tem onde plantar, não tem o que pegar para estar vendendo. Fica muito difícil uma pessoa sem um espaço para estar plantando. De que adianta morar dentro duma comunidade, dentro da várzea, e não ter onde plantar? É o mesmo que estar em cima de uma pedra".

Para combater a invasão de suas terras, os quilombolas começaram a se articular e a lutar pela titulação da área. Alba nos conta como esse processo começou:

"A primeira vez que a gente participou de um encontro de raízes negras foi em 1999. Mas isso foi engavetado, deixamos aí. Aí depois veio o 9º congresso que teve no Pacoval. Aí nós fomos para lá, participamos e veio muito mais ânimo, força. E no mesmo ano veio para cá o Frei Lourenço, fazendo celebração de uma missa e mostrando como era o trabalho quilombola para a titulação. E a gente participou, eu mesma fique lá direto ali prestando atenção nas explicações, em todos os debates, depoimentos. Em 2003 a gente conseguiu fazer a nossa associação e registrar com a ajuda do Raízes".

A luta dos quilombolas de Arapemã já produziu resultados. Conseguiram que o INCRA desse início   ao processo de regularização de suas terras.

Enquanto o título não chega, os moradores do Arapemã seguem fazendo planos de como será a vida na comunidade quando a titulação finalmente acontecer. A Alba conta um pouco destes sonhos:

"A gente pensa, assim, que depois da titulação, que as terras passarem para nossas mãos, vai ter uma área bonita ali, em que a gente pode estar fazendo uma nova escola. O sonho é que depois da titulação a gente amplie as casas, comece a colocar nossas casas em linha reta, num espaço bom, que seja suficiente para plantar e também para criar. Porque tem muita gente que cria galinha, pato, porco, carneiro, até gado, e aí precisa de um espaço para isso. Sem isso, não tem condições da pessoa plantar. E aí melhorará seu custo, seu auto-sustento. Nossa meta, nossa vontade, se tudo der certo, é a gente estruturar essa comunidade. Nós estamos sem estrutura. Nós não temos barracão. Nós não temos uma igreja porque o terreno que era da igreja foi vendido, por uma pessoa que nem era da comunidade".

E, continuando, Alba afirma que só a titulação trará a liberdade dos quilombolas moradores do Arapemã e o fim das ameaças e inseguranças:

"Eu vejo assim que a titulação vem trazer liberdade para nós, vem trazer a nossa liberdade. Porque hoje a gente ainda não se sente assim muito liberto porque os fazendeiros estão aí. Os nossos pescadores não podem ficar a vontade no lago. E corremos o risco de alguém com má intenção fazer alguma coisa ainda mais porque a gente está nesse processo de titulação. Nós mesmos já fomos muito ameaçados".


Leia nesta entrevista:

O problema do barro
A luta pela titulação da terra
A organização das mulheres


Saiba mais sobre a comunidade de Arapemã