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COMUNIDADE DA ILHA DE MARAMBAIA - RJ

AUTONOMIA E IDENTIDADE

Segundo estas mulheres, o auto-reconhecimento como quilombola é recente. Desde que esse reconhecimento ocorreu, duas são as principais preocupações reveladas ao longo da entrevista: a conquista da autonomia da comunidade e a afirmação de uma identidade própria.

Em vários momentos, nas falas de Vânia, a importância do "resgate da cultura" fica clara: "precisamos resgatar a capoeira. Nós temos até mesmo que poder resgatar a cultura ligada à religiosidade, por que não? Isso também é o nosso trabalho, né? Que as pessoas tenham liberdade de expressão.
A cultura se perdeu muito de uns tempos para cá, totalmente. Quer dizer, não existem mais as ladainhas, os benditos, o jongo, folia de reis.
As áreas de pesca foram devastadas.
Por isso a gente quer resgatar tudo isso, para se sentir novamente na Marambaia. Porque por hora não parece nem que a gente está dentro do Brasil, a Marambaia parece até um país à parte"
.

Vânia e Joeci enfatizam que outra questão que colabora para a "perda da identidade", principalmente dos jovens da comunidade, são os cursos oferecidos pela Marinha.

Explica Vânia: "os cursos que são oferecidos lá são totalmente fora da nossa realidade, entendeu? E que direta ou indiretamente vai tirar o quilombola da ilha. Os cursos são de turismo, agente de turismo. Lá na ilha não tem turismo e nem pode ter. É área de segurança nacional, então não tem turismo, né?
Então você imagina, quando eles oferecem esses cursos, que vai pela prefeitura, pelo SEBRAE. De repente a gente não sabe se o SEBRAE está tendo esse conhecimento das nossas formas de viver, das questões quilombolas. Então o que acontece é que eles vão oferecer o curso e com isso tem também a promessa de um emprego. Aí lá vão os nossos jovens sair da comunidade.
E é tudo que a organização militar quer. Quanto mais jovens fora da comunidade, menos forças nós vamos ter para lutar, entendeu? Nós vamos ficar sem o apoio, o nosso apoio realmente vai ter que ser os jovens. São eles que vão dar continuidade e nós vamos ficar sem eles"
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Como conclui Vânia, com ações desse tipo, a comunidade fica "sempre na mão de quem está de fora, e aí acabamos perdendo a nossa identidade".

Vânia faz questão de enfatizar o quanto a identidade do quilombola de Marambaia está ligada à atividade da pesca. Entretanto, a comunidade também tem enfrentado grandes dificuldades para praticar a pesca na ilha, o que acaba contribuindo para que muitos jovens abandonem o seu território de origem.

Vânia relata que "a baía é muito invadida por traineras, arrastões, grandes barcos que vão pegar isca para pescarem atum, são os atunzeiros. E essas coisas todas dificultam a vida do pequeno pescador, porque quem pesca em barquinho a remo e canoas são totalmente prejudicados porque as embarcações pegam os cardumes lá longe. Então, quer dizer, o peixe não chega próximo da colônia. Os peixes estão acabando, e o pescador lá de dentro está sofrendo muito com isso".

Leia os principais trechos da entrevista:

Origem da comunidade
Os problemas com a Marinha
Cotidiano e participação feminina
Garantia do Território
Educação
Autonomia e identidade
Visibilidade e cidadania

Conheça mais sobre a comunidade de Marambaia