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COMUNIDADE
DE MATÕES
DOS
MOREIRA -
MA
O PAPEL
DAS MULHERES NA COMUNIDADE
Para Ana Emília, o papel das mulheres, tanto na constituição
da comunidade de Matões, como na sua manutenção
foi e é fundamental:
"A comunidade em si foi feita,
juntada por mulheres. Na época da opressão maior que
a gente teve que era essa questão de um dono, outro, um dono
amanhã, um dono depois - apareceu uns 10 donos. Na década
de 70 até 90 apareceram vários donos dizendo que era
o legítimo dono.
A maioria dos negros saíu, alguém morreu, uma opressão.Ele
botava roça, o dono vinha e botava trator, derrubava, fazia,
acontecia, derrubavam casas. Então teve muito negro que morreu,
enquanto teve negro que foi embora.
E quem ficou nessa lida? Foram as mulheres. Por isso que as mulheres
... eu não vou dizer que elas tiveram só uma participação,
elas em si mesmo criaram, resistiram".
Como sugere o depoimento de Emília, muitos homens negros
morreram ou tiveram que sair da comunidade devido aos conflitos
ocorridos enquanto as mulheres permaneceram em Matões, impedindo
que a comunidade se dispersasse.
Atualmente, Emília diz que as mulheres participam da associação
de moradores, apesar dessa participação ainda ser insuficiente:
"eu vejo uma dificuldade entre as mulheres.
Eu vejo que mulheres não participam até por medo às
vezes. Porque se você vê em toda a história de
quilombola a mulher está no meio. A mulher que escondeu o marido.
Era a mulher que levava de comer no esconderijo do marido à
meia-noite. Quer dizer, sempre as mulheres agindo.
O sistema meteu na nossa cabeça esse tipo de coisa, então
a gente fica com medo de se abrir, de se revelar. E trabalhar a consciência
formada em 500 anos não pode ser desmanchado nem em 500 dias".
Quando perguntada sobre a diferença entre as atividades cotidianas
dos homens e das mulheres na comunidade, ela responde: "na
questão do artesanato, quem faz mais são as mulheres.
O artesanato mais do homem na comunidade de Matão é
com palha de palmeira, de coco de babaçu, fazendo cofo, abano,
esteira, cofo de balaio, e assim sucessivamente. E as mulheres fazem
tapete, doce, apesar de não ser reconhecido".
Isso não quer dizer que apenas os homens saibam trabalhar
com a palha de palmeira. Ana Emília afirma que as mulheres
também dominam essa técnica apesar deste tipo de artesanato
ser feito, em sua maioria, pelos homens.
No que diz respeito à agricultura, ela considera que, homens
e mulheres participam igualmente, cada qual com seu tipo de tarefa:
"somos iguais (homens e mulheres) no sentido de que nós
(mulheres) vamos também. Na época do 'broco', da derriba,
é o homem, mas onde é que a mulher entra? Ela que vai
para lá para fazer o comer, sabe, para ajudar a ele fazer aquilo,
sendo que ela não vai derrubar, mas ela está participando,
quebrando o coco para comprar o mantimento, vai cozinhar.
Quando chega uma época depois da queimada, aí está
todo mundo junto, quem vai capinar vai. Época de plantar a
gente tá junto, época de capinar a gente tá junto,
época de cortar. Por exemplo, agora é época de
colheita e a gente tá todo mundo, mulher, homem e menino".
Já em termos de atividades domésticas, os homens participam,
mas não com tanta freqüência, segundo a opinião
de Emília.
Leia os principais trechos da entrevista:
Origem da comunidade
A luta pela terra
O papel das mulheres na comunidade
Água e energia elétrica
A religião e as festas
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