A criação da Kabinda contou com o apoio da Associação das Comunidades Remanescentes de Quilombos do Município de Óbidos (ARQMOB) que representa as comunidades daquele município paraense. Assim explica Edinéia:
"Em conjunto com a ARQMOB nós estamos fundando o grupo de mulheres do município de Óbidos. Já fizemos várias reuniões, elaboramos o estatuto e escolhemos o nome, Kabinda, que quer dizer 'os primeiros negros trazidos da África para o Pará'".
A Kabinda foi criada com o objetivo de conscientizar a mulher negra e quilombola dos seus direitos, como conta Edinéia:
"O objetivo da criação desse movimento de mulheres é para elas terem conhecimento do direito que elas têm. A mulher hoje não tem de ser subordinada ao homem. Os direitos são iguais e é em cima disso que a gente desenvolve esse trabalho. Para elas se reconhecerem enquanto mulheres, saberem seus direitos e papéis na sociedade.
A comissão de mulheres é exatamente para isso: conciliar as coisas, conhecer os direitos delas, reconhecer que homens e mulheres são iguais e defender os interesses da mulher no que diz respeito à violência familiar e a violência que enfrenta na rua, problemas nas áreas de saúde e educação, além dos problemas que a gente enfrenta, a questão da desigualdade, preconceito contra as mulheres, tudo isso é discutido no movimento" .
No início, explica Edinéia, o grupo de mulheres não dispunha de material para trabalhar. Eles contataram a Comissão Pró-Índio de São Paulo que lhes enviou a cartilha Mulheres Quilombolas e Desenvolvimento Sustentado:
"Quando a gente começou não tínhamos nenhum material para trabalhar. A CPI nos ajudou, enviando material, livros, para a gente começar a trabalhar. Agora, a gente se comunica por meio de cartas".
Edinéia conta que neste primeiro ano de existência, a principal atividade da Kabinda foi a conscientização das mulheres em cada comunidade de Óbidos:
"Na nossa primeira reunião, onde decidimos criar essa organização, mais de 200 mulheres participaram. Formamos, então, uma comissão com 15 mulheres que vai às comunidades fazer as reuniões de conscientização. Nosso passo seguinte foi ir a cada comunidade e fazer reuniões de conscientização, para convidar as mulheres a participarem do Kabinda".
Então, nós ainda estamos nessa fase de conscientização das mulheres negras do município. Em cada mês, fazemos reuniões de conscientização, onde abrangemos diversos assuntos. Damos preferência aos assuntos ligados aos direitos da mulher negra. Participam desse grupo as mulheres das 13 comunidades quilombolas do município de Óbidos".
Outra atividade iniciada, diz Edinéia, é o resgate das tradições culturais das comunidades quilombolas de Óbidos:
"Estamos fazendo também o resgate de nossa cultura. Nas reuniões que fazemos em cada comunidade, nós temos a nossa noite cultural, onde cada comunidade fica encarregada de levar uma ou mais danças, a gente ensaia e se apresenta. É uma forma que a gente achou para resgatar a nossa cultura, porque têm pessoas que não conhecem exatamente o que é uma dança de negros, não sabe nem que existe".
Edinéia afirma que o movimento de mulheres tem ajudado nas relações de gênero nas comunidades do Município de Óbidos:
"Ainda sentimos muita opressão de nossos maridos, apesar de eles terem melhorado. Agora eles nos acompanham em reuniões e deixam que a gente assista às reuniões deles também".
A Kabinda conseguiu, até um apoio dos homens conta Edinéia:
"Nas nossas reuniões os homens vão com suas esposas, namoradas e, chegando lá, eles vão para a cozinha, para eles provarem um pouco do que é ser mulher! Então eles preparam o café, a merenda, almoço e a janta, o que for necessário. Então a gente se sente feliz porque eles estão procurando caminhar com a gente".
Segundo Edinéia apesar de ser uma entidade nova, a Kabinda já trazendo resultados:
"Estamos no começo ainda, mas percebemos que a semente já está plantada. A gente está vendo que a mulherada está indo bastante e procurando conhecer os seus direitos. E isso é muito importante para a gente porque, quando você está à frente de uma associação e não sente o interesse das pessoas a gente se sente triste, pensa em desistir, com certeza. Então, está sendo de grande importância para a gente. A gente está super feliz com isso e agora é seguir em frente".
Kabinda - Comissão de Mulheres Quilombolas do Município de Óbidos
Rua Graciliano Negreiros, 432, Bairro de Cidade Nova
Óbidos, Pará, 68250-000
Conheça um pouco mais sobre a Kabinda lendo a entrevista realizada em maio de 2005
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