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COMUNIDADES DE SALVATERRA - PA

A MULHER MARAJOARA

Beth é Coordenadora de Promoção da Igualdade de Gênero da Malungu e dedica-se a organizar grupos de mulheres em comunidades quilombolas. O objetivo deste trabalho, segundo ela, é organizar as mulheres:

  "Porque hoje a gente sabe que a mulher está evoluindo. E muitas não sabem que possuem direitos, que há leis que as protegem e as acolhem, que elas podem fazer projetos em seus benefícios".

Em Bacabal, Lina também ajuda a organizar as mulheres:

"As mulheres são as maiores presenças nas reuniões. Elas estão ali para tudo. Tem a participação dos homens, mas é mais a mulher que vem".

Jane conta que em Paixão ainda não está formado um grupo só de mulheres. Porém, a presença delas nas atividades da comunidade é bastante ativa:

"Nas reuniões da comunidade, a freqüência é mais da mulher. Nós temos as nossas festas e a mulher é responsável por quase tudo da organização: das comidas, das bebidas etc. A gente é que faz a programação da festa, a gente é que sai para divulgar nas rádios, faz os convites dos torneios de futebol. As mulheres é que trabalham mais".

A participação nas decisões da comunidade, contudo, é algo novo para a vida dessas mulheres. É uma conquista que ainda enfrenta barreiras, como explica Beth:

"Antigamente, a gente tinha que saber lavar, passar, costurar e cuidar dos filhos. Isso ainda existe muito lá no Marajó, homem machista mesmo, que nos diz assim: 'você não pode sair, por que você é mulher, tem de ficar dentro de casa para quando eu chegar, eu ver tudo arrumado...'. Mas, com o passar dos anos a gente vê que isso tem evoluído. Por exemplo, hoje, a maioria dos professores nas comunidades do Marajó é mulher e a maioria dos chefes de famílias também. Em geral, são mães solteiras, como eu sou. Eu acho que aos poucos está se criando outra visão das mulheres. Apesar da dificuldade, os homens estão entendendo que nós podemos ter o nosso espaço".

No dia-a-dia da comunidade há uma divisão de tarefas entre homens e mulheres. Assim explica Beth:

"Os homens ficam com o serviço mais pesado, que é a derruba de mata e a preparação da terra para o plantio. Quando chega na parte de plantação e colheita a mulher ajuda. Na fabricação de farinha também, a mulher vai e leva os filhos crianças também. No Marajó tem muitos vaqueiros. Esse é um serviço que só o homem faz. Ele sai de madrugada e chega de noite".

Jane explica que não são poucas as responsabilidades das mulheres:

"O resto dos serviços é tudo a mulher que faz: ela varre o quintal, cuida da casa, da roupa, da comida. Se o marido é vaqueiro, é a mulher que cuida da roça, que faz a farinha, sozinha ou pedindo ajuda. Mas há uma diferença: o homem, quando acaba o serviço fora de casa, pode descansar em casa. A mulher tem de continuar trabalhando".

Por isso, a importância do trabalho com o grupo de mulheres, afirma Beth:

"É um trabalho que a gente está tentando desenvolver para a mulher ajudar o seu parceiro a crescer. Muitas vezes eu escuto: 'ah, o que a gente está fazendo? Para quê esse grupo de mulheres?'. Eu sempre respondo que com um grupo de mulheres, pode-se aprender a se organizar e melhorar a comunidade. Por exemplo, a gente sabe que na maioria das comunidades, as condições de alimentação, saúde e higiene são precárias, então a gente ensina como fazer uma horta melhor. A gente faz isso para ajudar a melhorar essas coisas".

Lina completa:

"E também para gerar renda, porque é importante que as mulheres tenham as suas rendas, independente dos seus maridos. Em Bacabal, a gente desenvolve fabricação de roupas afro, que nós costuramos em pintamos. Fazemos artesanato também. Deste modo, o trabalho com as mulheres ajuda a gente na questão de organizar sua família e sua comunidade".


Leia nesta entrevista:

A vida nas comunidades
Luta pela terra
A mulher marajoara


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