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COMUNIDADE
SANTA ROSA
DOS
PRETOS - MA
A LUTA
PELA TERRA
As terras de Santa Rosa dos Pretos ainda não estão
tituladas, como explica Jaqueline. "O
barão deixou as terras para os escravos descendentes, né?
Só que teve um fazendeiro, um tal de João Rodolfo,
que tomou quase metade de nossa terra. As famílias estão
aumentando e a terra está pouca para o tanto de família,
o tanto de pessoa. Porque o fazendeiro entrou numa parte da terra
que fica lá no final das nossas terras. Ele entrou e pegou
quase uns 20 hectares. São duas fazendas dele no nosso terreno
e a gente está lutando. Faz muitos anos que ele pegou e o
meu tio luta muito no INCRA para isso".
A usurpação das terras também prejudica
a agricultura local como relata Jaqueline: "não
tem onde fazer as nossas roças porque nosso método
de trabalho é assim: trabalha um ano numa parte da terra,
aí deixa essa terra repousar, criar aqueles minerais novamente.
Com seis anos depois é que torna a roçar naquele mesmo
local. Aí não tem condição com a terra
pequena e a população grande. E não tem condição
de eles fazerem a roça no mesmo lugar porque não dá.
Quando era o meu bisavô, até na minha mãe mesmo,
a gente fazia uma casinha para colocar o arroz depois de colhido
e ia de um ano até outro com aquele mesmo arroz. Agora não.
Agora a gente terminou de colher, já terminou de comer porque
não está mais dando para ficar assim armazenado".
Jaqueline explicou que a comunidade luta há muitos anos por
suas terras: "tem no documento que o
barão deixou terra para os descendentes de escravo dele e
não pode dar, nem emprestar, nem vender, nem alugar, nem
nada. Só que teve um que vendeu. Só que ele não
é dono de lá e agora está uma polêmica
na justiça a favor dessas terras. Só que o que comprou
era consciente de que não podia comprar aquelas terras porque
sabia que não era só um dono, era da comunidade inteira,
as duas mil e poucas pessoas. E está nessa confusão
de terras e nós estamos lutando e se organizando".
A comunidade de Santa Rosa ainda enfrenta uma disputa muito particular:
a disputa por um nome que corresponda melhor à identidade
de seus moradores como negros quilombolas. Assim explica Jaqueline:
"nossa comunidade é mais conhecida
como Santa Rosa do Barão porque foi o barão que deixou
as terras com os descendentes de escravos. Aí sempre implica
muito nesse dizer 'Santa Rosa do Barão'. Aí eles pensam:
'Ah, lá só tem barão!'. Mas vai ver lá,
nossa realidade é outra. Nós estamos com um processo
no fórum para tirar esse Santa Rosa do Barão e colocar
Santa Rosa dos Pretos".
Leia os principais trechos da entrevista:
A luta pela terra
Saúde, educação
e infra-estrutura
Agricultura
A participação
das mulheres
Religião e festas
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